A Copa do Mundo da incógnita

  • Icon instagram_blue
  • Icon youtube_blue
  • Icon x_blue
  • Icon facebook_blue
  • Icon google_blue

Por Carlos Frederico Pereira da Silva Gama, colaborador do SRzd A Copa do Mundo de 2026 começará na próxima quinzena. O maior dos mundiais de futebol – 48 seleções disputando partidas em 3 sedes na América do Norte – ainda não despertou paixões no Brasil, outrora considerado o “pais do futebol”. Pesquisa recente apontou 54% dos […]

POR Carlos Frederico Pereira da Silva Gama 1/6/2026| 6 min de leitura

Camisa da Seleção Brasileira para Copa do Mundo 2022. Foto: Divulgação/Nike

Camisa da Seleção Brasileira para Copa do Mundo 2022. Foto: Divulgação/Nike

| Siga-nos

Por Carlos Frederico Pereira da Silva Gama, colaborador do SRzd

A Copa do Mundo de 2026 começará na próxima quinzena. O maior dos mundiais de futebol – 48 seleções disputando partidas em 3 sedes na América do Norte – ainda não despertou paixões no Brasil, outrora considerado o “pais do futebol”. Pesquisa recente apontou 54% dos brasileiros desinteressados nos confrontos do maior esporte da Terra. 

A apatia verde-amarela com gramados e chuteiras contrasta com as décadas anteriores, em que o título mundial da Seleção Canarinho impulsionou transformações nas urnas. Em 1994, Fernando Henrique Cardoso sequer figurava nas pesquisas de opinião que davam uma vitória no primeiro turno a Luiz Inácio Lula da Silva. A conquista do Tetra coincidiu com o auge do Plano Real, cujos frutos o ex-ministro da Fazenda FHC herdou. Em 2002, após três derrotas consecutivas, Lula seria eleito presidente pela primeira vez, após a inesperada conquista do Pentacampeonato nos gramados japoneses e coreanos. 

No país da polarização, a camisa da Seleção criou fronteiras emocionais. Democracia e futebol se desencontraram. Agora partidarizada, a Amarelinha saiu das quatro linhas do gramado para as tribos e tribunais. O desinteresse com a Seleção se aprofundou na última disputa mundial, realizada pela primeira vez no Golfo Persico. Por limitações climáticas, a Copa do Catar foi transportada para o fim do ano, após as eleições de 2022. 

O Brasil tampouco figura entre os favoritos ao título. Após desperdiçar a preparação para 2026 com quatro diferentes treinadores, o país se classificou com seu pior desempenho no atual formato das eliminatórias sul-americanas. A chegada do campeoníssimo Carlo Ancelotti (Real Madrid) prometia colocar nos eixos o time mais vitorioso do planeta. No fim das contas, “Carleto” manteve 15 dos convocados por Tite em 2022 – dando, na prática, continuidade ao trabalho pouco vitorioso do ex-técnico do Corinthians. 

A apatia dos brasileiros e a falta de protagonismo da Seleção são dados surpreendentes. O Brasil é a única seleção a conquistar três títulos em gramados americanos (1962, 1970 e 1994). A pátria de chuteiras foi a única a ser campeã em duas das três sedes de 2026, em ambas as vezes vencendo os tradicionais rivais italianos. No Estadio Azteca em 1970, o time de feras de Pelé encantou o mundo e conquistou a Taça Jules Rimet. No Rose Bowl em 1994, o limitado time de Romário quebrou o jejum de 24 anos ao vencer nos pênaltis. 

Em 2026 outra vez chegamos a 24 anos de jejum. E dessa vez, não repetiremos as vitorias memoráveis sobre a Azzurra. A Itália, pela segunda vez consecutiva, está fora da Copa. E o técnico da seleção cinco vezes campeã mundial, pela primeira vez, será um italiano. As contradições do Brasil – único país presente em todas as Copas – não param por aí. 

Melhor Jogador do Mundo em 2024, campeão do mundo e da Europa com o Real Madrid, símbolo mundial da luta contra o racismo no futebol. Vini Jr. teria tudo para ser o craque da Seleção Brasileira na próxima Copa do Mundo. Em 2026, porém, o craque se tornou menos famoso por seu desempenho que por sua rumorosa ruptura com a influenciadora Virginia – envolta em outra polemica, contratada pela Rede Globo para comentar a Copa. 

No primeiro amistoso após a convocação de “Carleto” para a Copa 2026, a goleada sobre o limitado Panamá no Maracanã ficou em segundo plano, diante das vaias da torcida endereçadas a Virginia e das reações constrangidas de Vini Jr. nas redes sociais. 

Nos últimos anos, a Seleção produziu mais protagonismo nas redes sociais do que nos corações, mentes e gramados dos brasileiros e brasileiras. Nesse contexto, a campanha de marketing pela convocação do envelhecido Neymar monopolizou as atenções. A decadência esportiva do outrora craque do Santos, Barcelona e Paris Saint-Germain foi esquecida diante de ver o mais popular jogador brasileiro no século disputar outra Copa.

Desde seu belo gol contra a Croácia na Copa do Catar – que prometia colocar o Brasil nas semifinais – Neymar disputou menos de 100 partidas profissionais. Em termos de pura performance, sua convocação por “Carleto” foi indefensável. Suas conhecidas limitações físicas lançam uma cortina de fumaça sobre a preparação do escrete brasileiro. Por outro lado, diante do resfriamento da relação popular com a camisa amarela, o eterno retorno de Neymar traz um elo de mobilização nostálgica. Como em 2010 (ficou de fora), 2014, 2018 e 2022, Neymar ainda simboliza o Brasil que não desiste. 

Enquanto o Brasil não desiste do Menino Ney mas resiste em amar a “Copa das Copas”, o mundo se prepara para o improvável. Desde a reeleição de Donald Trump em 2024, as relações diplomáticas na América do Norte vão de mal a pior. Trump acusou Canada e Mexico de facilitarem o tráfico de fentanil e a migração ilegal para os Estados Unidos, antes de impor tarifas comerciais milionárias sobre os antigos parceiros da Area de Livre Comercio da América do Norte. Além das tensões comerciais e fronteiriças, a retórica populista de Trump incluiu ameaças de anexar o Canadá como o 51º estado norte-americano e de atacar organizações criminosas transnacionais (recentemente, agentes da CIA foram mortos atuando, sem autorização, em território mexicano). O tom de enfrentamento entre o Primeiro-Ministro do Canada Max Carney, a Presidenta do Mexico Claudia Sheinbaum e o Presidente Trump lança um cone de sombra sobre a Copa 2026. 

A guerra em curso entre os EUA, o Estado de Israel e a República Islâmica do Irã adicionou um componente geopolítico às incógnitas esportivas. Classificado para a Copa, o Irã se recusou a jogar em território norte-americano – ao passo que a FIFA negou o pedido da federação iraniana de futebol para disputar suas partidas no Mexico. Enquanto isso, Trump não autorizou a emissão de vistos para os jogadores iranianos. A duas semanas do início do Mundial, esse impasse prossegue – ao sabor de incertezas na diplomacia errática do atual ocupante da Casa Branca, num mundo fragmentário, mas ainda unido, de quatro em quatro anos, ao redor das quatro linhas de um gramado verde.

Sobre Carlos Frederico Pereira da Silva Gama: Escritor, poeta, cronista, doutor em Relações Internacionais pela PUC-Rio, fundador do BRICS Policy Center, professor da Shiv Nadar University (Índia), cinéfilo e leitor voraz, fã da Fórmula 1 e da cultura pop, líder das bandas independentes Oblique, EXXC e Still That.

Escreveu para a Folha de São Paulo, Jornal do Brasil, Correio Braziliense, O Dia, Brasil Econômico, Portal R7, Observatório da Imprensa e publicações acadêmicas como Global Governance e E-International Relations. É colunista de música e cinema do blog de cultura pop Cultecléticos.

Publicou quatro livros – “Surrealogos” (2012), “Modernity at Risk: Complex Emergencies, Humanitarianism, Sovereignty” (2012), “Após a Guerra, Estabilidade? Mudanças Institucionais nas Operações de Paz da ONU (1992-2000)” (2016) e “Ensaios Globais: da Primavera Árabe ao Brexit (2011-2020)” (2022).

Rodapé - mundo

Por Carlos Frederico Pereira da Silva Gama, colaborador do SRzd

A Copa do Mundo de 2026 começará na próxima quinzena. O maior dos mundiais de futebol – 48 seleções disputando partidas em 3 sedes na América do Norte – ainda não despertou paixões no Brasil, outrora considerado o “pais do futebol”. Pesquisa recente apontou 54% dos brasileiros desinteressados nos confrontos do maior esporte da Terra. 

A apatia verde-amarela com gramados e chuteiras contrasta com as décadas anteriores, em que o título mundial da Seleção Canarinho impulsionou transformações nas urnas. Em 1994, Fernando Henrique Cardoso sequer figurava nas pesquisas de opinião que davam uma vitória no primeiro turno a Luiz Inácio Lula da Silva. A conquista do Tetra coincidiu com o auge do Plano Real, cujos frutos o ex-ministro da Fazenda FHC herdou. Em 2002, após três derrotas consecutivas, Lula seria eleito presidente pela primeira vez, após a inesperada conquista do Pentacampeonato nos gramados japoneses e coreanos. 

No país da polarização, a camisa da Seleção criou fronteiras emocionais. Democracia e futebol se desencontraram. Agora partidarizada, a Amarelinha saiu das quatro linhas do gramado para as tribos e tribunais. O desinteresse com a Seleção se aprofundou na última disputa mundial, realizada pela primeira vez no Golfo Persico. Por limitações climáticas, a Copa do Catar foi transportada para o fim do ano, após as eleições de 2022. 

O Brasil tampouco figura entre os favoritos ao título. Após desperdiçar a preparação para 2026 com quatro diferentes treinadores, o país se classificou com seu pior desempenho no atual formato das eliminatórias sul-americanas. A chegada do campeoníssimo Carlo Ancelotti (Real Madrid) prometia colocar nos eixos o time mais vitorioso do planeta. No fim das contas, “Carleto” manteve 15 dos convocados por Tite em 2022 – dando, na prática, continuidade ao trabalho pouco vitorioso do ex-técnico do Corinthians. 

A apatia dos brasileiros e a falta de protagonismo da Seleção são dados surpreendentes. O Brasil é a única seleção a conquistar três títulos em gramados americanos (1962, 1970 e 1994). A pátria de chuteiras foi a única a ser campeã em duas das três sedes de 2026, em ambas as vezes vencendo os tradicionais rivais italianos. No Estadio Azteca em 1970, o time de feras de Pelé encantou o mundo e conquistou a Taça Jules Rimet. No Rose Bowl em 1994, o limitado time de Romário quebrou o jejum de 24 anos ao vencer nos pênaltis. 

Em 2026 outra vez chegamos a 24 anos de jejum. E dessa vez, não repetiremos as vitorias memoráveis sobre a Azzurra. A Itália, pela segunda vez consecutiva, está fora da Copa. E o técnico da seleção cinco vezes campeã mundial, pela primeira vez, será um italiano. As contradições do Brasil – único país presente em todas as Copas – não param por aí. 

Melhor Jogador do Mundo em 2024, campeão do mundo e da Europa com o Real Madrid, símbolo mundial da luta contra o racismo no futebol. Vini Jr. teria tudo para ser o craque da Seleção Brasileira na próxima Copa do Mundo. Em 2026, porém, o craque se tornou menos famoso por seu desempenho que por sua rumorosa ruptura com a influenciadora Virginia – envolta em outra polemica, contratada pela Rede Globo para comentar a Copa. 

No primeiro amistoso após a convocação de “Carleto” para a Copa 2026, a goleada sobre o limitado Panamá no Maracanã ficou em segundo plano, diante das vaias da torcida endereçadas a Virginia e das reações constrangidas de Vini Jr. nas redes sociais. 

Nos últimos anos, a Seleção produziu mais protagonismo nas redes sociais do que nos corações, mentes e gramados dos brasileiros e brasileiras. Nesse contexto, a campanha de marketing pela convocação do envelhecido Neymar monopolizou as atenções. A decadência esportiva do outrora craque do Santos, Barcelona e Paris Saint-Germain foi esquecida diante de ver o mais popular jogador brasileiro no século disputar outra Copa.

Desde seu belo gol contra a Croácia na Copa do Catar – que prometia colocar o Brasil nas semifinais – Neymar disputou menos de 100 partidas profissionais. Em termos de pura performance, sua convocação por “Carleto” foi indefensável. Suas conhecidas limitações físicas lançam uma cortina de fumaça sobre a preparação do escrete brasileiro. Por outro lado, diante do resfriamento da relação popular com a camisa amarela, o eterno retorno de Neymar traz um elo de mobilização nostálgica. Como em 2010 (ficou de fora), 2014, 2018 e 2022, Neymar ainda simboliza o Brasil que não desiste. 

Enquanto o Brasil não desiste do Menino Ney mas resiste em amar a “Copa das Copas”, o mundo se prepara para o improvável. Desde a reeleição de Donald Trump em 2024, as relações diplomáticas na América do Norte vão de mal a pior. Trump acusou Canada e Mexico de facilitarem o tráfico de fentanil e a migração ilegal para os Estados Unidos, antes de impor tarifas comerciais milionárias sobre os antigos parceiros da Area de Livre Comercio da América do Norte. Além das tensões comerciais e fronteiriças, a retórica populista de Trump incluiu ameaças de anexar o Canadá como o 51º estado norte-americano e de atacar organizações criminosas transnacionais (recentemente, agentes da CIA foram mortos atuando, sem autorização, em território mexicano). O tom de enfrentamento entre o Primeiro-Ministro do Canada Max Carney, a Presidenta do Mexico Claudia Sheinbaum e o Presidente Trump lança um cone de sombra sobre a Copa 2026. 

A guerra em curso entre os EUA, o Estado de Israel e a República Islâmica do Irã adicionou um componente geopolítico às incógnitas esportivas. Classificado para a Copa, o Irã se recusou a jogar em território norte-americano – ao passo que a FIFA negou o pedido da federação iraniana de futebol para disputar suas partidas no Mexico. Enquanto isso, Trump não autorizou a emissão de vistos para os jogadores iranianos. A duas semanas do início do Mundial, esse impasse prossegue – ao sabor de incertezas na diplomacia errática do atual ocupante da Casa Branca, num mundo fragmentário, mas ainda unido, de quatro em quatro anos, ao redor das quatro linhas de um gramado verde.

Sobre Carlos Frederico Pereira da Silva Gama: Escritor, poeta, cronista, doutor em Relações Internacionais pela PUC-Rio, fundador do BRICS Policy Center, professor da Shiv Nadar University (Índia), cinéfilo e leitor voraz, fã da Fórmula 1 e da cultura pop, líder das bandas independentes Oblique, EXXC e Still That.

Escreveu para a Folha de São Paulo, Jornal do Brasil, Correio Braziliense, O Dia, Brasil Econômico, Portal R7, Observatório da Imprensa e publicações acadêmicas como Global Governance e E-International Relations. É colunista de música e cinema do blog de cultura pop Cultecléticos.

Publicou quatro livros – “Surrealogos” (2012), “Modernity at Risk: Complex Emergencies, Humanitarianism, Sovereignty” (2012), “Após a Guerra, Estabilidade? Mudanças Institucionais nas Operações de Paz da ONU (1992-2000)” (2016) e “Ensaios Globais: da Primavera Árabe ao Brexit (2011-2020)” (2022).

Rodapé - mundo

Notícias Relacionadas

Ver tudo