‘O cemitério está cheio de mulheres que perdoaram’, diz Maria da Penha
Violência contra a mulher. A cearense Maria da Penha Maia Fernandes, 81 anos, sofreu duas tentativas praticadas pelo então marido, o colombiano Marco Antonio Heredia Viveros. Primeiro, levou um tiro nas costas enquanto dormia, que a deixou paraplégica. Após sair do hospital, ela afirmou que foi mantida em cárcere privado por cerca de 15 dias […]
PORRedação SRzd12/3/2026|
5 min de leitura
Placa de protesto. Foto: Tânia Rêgo/Agência Brasil
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Violência contra a mulher. A cearense Maria da Penha Maia Fernandes, 81 anos, sofreu duas tentativas praticadas pelo então marido, o colombiano Marco Antonio Heredia Viveros. Primeiro, levou um tiro nas costas enquanto dormia, que a deixou paraplégica.
Após sair do hospital, ela afirmou que foi mantida em cárcere privado por cerca de 15 dias pelo agressor. Nesse período, sofreu uma segunda tentativa de homicídio.
Enquanto o agressor precisou viajar, conseguiu escapar e, com a ajuda de funcionárias da casa, foi levada de volta para a residência dos pais.
Não é à toa que Maria da Penha dá nome à lei criada em 2006, considerada um dos principais instrumentos legais de combate à violência contra a mulher no Brasil.
De sua cadeira de rodas ela dirige o Instituto Maria da Penha (IMP), ONG fundada por ela em 2009 que batalha contra a violência doméstica, em seminários e palestras por todo o Brasil.
Símbolo da luta contra a violência doméstica e uma das vozes mais potentes nesse movimento, a ativista afirmou que “o cemitério está cheio de mulheres que perdoaram”, ao falar sobre o ciclo de violência enfrentado por vítimas que permanecem em relações abusivas.
A declaração foi dada durante sua fala durante um evento organizado pela Avon, em São Paulo, no mesmo dia em que o Senado Federal aprovou mudanças na Lei Maria da Penha para reforçar a proteção às vítimas e reduzir a pressão para que mulheres desistam de denúncias contra agressores.
Durante o encontro, Maria da Penha ressaltou que muitas vítimas permanecem em relacionamentos violentos acreditando que o agressor irá mudar após pedidos de perdão.
“Quem vive a violência doméstica tem esperança de que o pedido de perdão vai valer, mas com 15 dias ele faz a mesma coisa ou pior”, disse.
“Se você conhece uma mulher que sofre violência doméstica, aproxime-se. Pergunte se ela quer ajuda. Ofereça ir com ela à delegacia ou a um centro de referência da mulher. Oriente a ligar para o 180”, afirmou.
+ leia a íntegra o depoimento dela:
“Eu tenho 43 anos de luta por justiça. Há 43 anos sofri uma tentativa de feminicídio. Na época, ainda chamava de homicídio. Esse ano, que a lei completa 20 anos, só tenho recebido notícias importantes do que foi a minha luta para mim e para outras mulheres. Conheci o meu agressor em 1974, quando vim para São Paulo fazer mestrado. Como todo agressor, no início sempre era tudo em excelente comunhão, tínhamos os mesmos ideais.
Ainda em São Paulo minha primeira filha nasceu. Ele era um economista colombiano que naturalizou-se brasileiro com o nascimento da filha. Eu terminei o mestrado, voltei para Fortaleza e ele ficou aqui para terminar o mestrado. Depois, ele também foi para Fortaleza e conseguiu emprego. No momento em que se fez um profissional, ele mostrou a sua verdadeira face.
Comecei a sofrer violência doméstica e, naquela época, não tínhamos nada que nos poupasse. Continuava aquela história de que, em briga de marido e mulher, ninguém mete a colher. Minhas filhas foram vítimas desse bandido. Eu fui vítima desse bandido. A violência que eu sofria não era de deixar roxo, era a dos empurrões, dos puxões de cabelo.
Procurei a igreja católica e passamos a participar do encontro de casais. Ele foi excelente lá, mas voltou para casa a mesma pessoa. Uma noite, acordei com um grande estampido no quarto e só pensei, ele me matou. E eu só pensava uma coisa: não quero deixar as minhas filhas na orfandade. Passei quatro meses hospitalizada. Saí do hospital sem conseguir mexer o braço, não conseguia nem pentear o meu cabelo.
Ele espalhou que fui vítima de um assalto, mas os vizinhos não acreditaram nessa versão porque eles que me socorreram. A Secretaria de Segurança Pública abriu um inquérito e chegou à conclusão de que ele atirou contra mim. Havia muitas contradições nas falas dele.
Quando voltei do hospital, ele não deixou eu ir para a casa dos meus pais e fiquei em cárcere privado por 15 dias. Nesse período, sofri uma segunda tentativa de feminicídio, através de uma eletrocussão. Ele viajou, eu consegui ser resgatada e voltei para a casa dos meus pais.
Estou aqui hoje pelo movimento de mulheres que existiu. Ali era o início do movimento de mulheres contra a violência. Então, entendi que aquele sofrimento não era só meu. Muitas mulheres morreram também naquela época. Foi o movimento de mulheres que me inspirou e estou com elas até hoje.
Se você sabe de alguma mulher que sofre violência doméstica, se aproxime dela. Veja se ela quer ajuda. Faça isso! Mande ela ligar para o 180 e não largue essa mulher até ela ter coragem de sair. Por que quem vive a violência sempre fica esperando que ele vai pedir perdão, mas ele vai continuar assim até te matar. O cemitério está cheio de mulheres que perdoaram.
As mulheres precisam ter a sua autonomia financeira, ter um caminho aberto para elas. Entendemos que nenhuma criança nasce machista e homofóbica, elas aprendem nas suas comunidades. Há um projeto que temos no Ceará chamado Prateleira Maria da Penha. A violência contra a mulher é tão complexa, que a gente sente falta de uma cartilha que fale o nosso linguajar. Por isso que no Ceará já há o projeto Maria da Penha nas escolas.
É uma prateleira tão interessante que, por mais que a mulher tenha falta de instrução, ela tem condições de entender. Cada local onde tem mulheres pode ter uma prateleira dessa, porque ela traz instruções elementares sobre isso. O beabá tem que começar nos nossos ambientes de trabalho, nas nossas escolas. A gente precisa que a lei Maria da Penha seja trabalhada nas escolas do Ensino Fundamental ao Ensino Superior. A gente se decepciona com quem estuda, faz curso superior e diminui as mulheres, luta contra as mulheres. Mulheres e homens comprometidos com o bem da sociedade têm que abraçar a causa das mulheres”.
Violência contra a mulher. A cearense Maria da Penha Maia Fernandes, 81 anos, sofreu duas tentativas praticadas pelo então marido, o colombiano Marco Antonio Heredia Viveros. Primeiro, levou um tiro nas costas enquanto dormia, que a deixou paraplégica.
Após sair do hospital, ela afirmou que foi mantida em cárcere privado por cerca de 15 dias pelo agressor. Nesse período, sofreu uma segunda tentativa de homicídio.
Enquanto o agressor precisou viajar, conseguiu escapar e, com a ajuda de funcionárias da casa, foi levada de volta para a residência dos pais.
Não é à toa que Maria da Penha dá nome à lei criada em 2006, considerada um dos principais instrumentos legais de combate à violência contra a mulher no Brasil.
De sua cadeira de rodas ela dirige o Instituto Maria da Penha (IMP), ONG fundada por ela em 2009 que batalha contra a violência doméstica, em seminários e palestras por todo o Brasil.
Símbolo da luta contra a violência doméstica e uma das vozes mais potentes nesse movimento, a ativista afirmou que “o cemitério está cheio de mulheres que perdoaram”, ao falar sobre o ciclo de violência enfrentado por vítimas que permanecem em relações abusivas.
A declaração foi dada durante sua fala durante um evento organizado pela Avon, em São Paulo, no mesmo dia em que o Senado Federal aprovou mudanças na Lei Maria da Penha para reforçar a proteção às vítimas e reduzir a pressão para que mulheres desistam de denúncias contra agressores.
Durante o encontro, Maria da Penha ressaltou que muitas vítimas permanecem em relacionamentos violentos acreditando que o agressor irá mudar após pedidos de perdão.
“Quem vive a violência doméstica tem esperança de que o pedido de perdão vai valer, mas com 15 dias ele faz a mesma coisa ou pior”, disse.
“Se você conhece uma mulher que sofre violência doméstica, aproxime-se. Pergunte se ela quer ajuda. Ofereça ir com ela à delegacia ou a um centro de referência da mulher. Oriente a ligar para o 180”, afirmou.
+ leia a íntegra o depoimento dela:
“Eu tenho 43 anos de luta por justiça. Há 43 anos sofri uma tentativa de feminicídio. Na época, ainda chamava de homicídio. Esse ano, que a lei completa 20 anos, só tenho recebido notícias importantes do que foi a minha luta para mim e para outras mulheres. Conheci o meu agressor em 1974, quando vim para São Paulo fazer mestrado. Como todo agressor, no início sempre era tudo em excelente comunhão, tínhamos os mesmos ideais.
Ainda em São Paulo minha primeira filha nasceu. Ele era um economista colombiano que naturalizou-se brasileiro com o nascimento da filha. Eu terminei o mestrado, voltei para Fortaleza e ele ficou aqui para terminar o mestrado. Depois, ele também foi para Fortaleza e conseguiu emprego. No momento em que se fez um profissional, ele mostrou a sua verdadeira face.
Comecei a sofrer violência doméstica e, naquela época, não tínhamos nada que nos poupasse. Continuava aquela história de que, em briga de marido e mulher, ninguém mete a colher. Minhas filhas foram vítimas desse bandido. Eu fui vítima desse bandido. A violência que eu sofria não era de deixar roxo, era a dos empurrões, dos puxões de cabelo.
Procurei a igreja católica e passamos a participar do encontro de casais. Ele foi excelente lá, mas voltou para casa a mesma pessoa. Uma noite, acordei com um grande estampido no quarto e só pensei, ele me matou. E eu só pensava uma coisa: não quero deixar as minhas filhas na orfandade. Passei quatro meses hospitalizada. Saí do hospital sem conseguir mexer o braço, não conseguia nem pentear o meu cabelo.
Ele espalhou que fui vítima de um assalto, mas os vizinhos não acreditaram nessa versão porque eles que me socorreram. A Secretaria de Segurança Pública abriu um inquérito e chegou à conclusão de que ele atirou contra mim. Havia muitas contradições nas falas dele.
Quando voltei do hospital, ele não deixou eu ir para a casa dos meus pais e fiquei em cárcere privado por 15 dias. Nesse período, sofri uma segunda tentativa de feminicídio, através de uma eletrocussão. Ele viajou, eu consegui ser resgatada e voltei para a casa dos meus pais.
Estou aqui hoje pelo movimento de mulheres que existiu. Ali era o início do movimento de mulheres contra a violência. Então, entendi que aquele sofrimento não era só meu. Muitas mulheres morreram também naquela época. Foi o movimento de mulheres que me inspirou e estou com elas até hoje.
Se você sabe de alguma mulher que sofre violência doméstica, se aproxime dela. Veja se ela quer ajuda. Faça isso! Mande ela ligar para o 180 e não largue essa mulher até ela ter coragem de sair. Por que quem vive a violência sempre fica esperando que ele vai pedir perdão, mas ele vai continuar assim até te matar. O cemitério está cheio de mulheres que perdoaram.
As mulheres precisam ter a sua autonomia financeira, ter um caminho aberto para elas. Entendemos que nenhuma criança nasce machista e homofóbica, elas aprendem nas suas comunidades. Há um projeto que temos no Ceará chamado Prateleira Maria da Penha. A violência contra a mulher é tão complexa, que a gente sente falta de uma cartilha que fale o nosso linguajar. Por isso que no Ceará já há o projeto Maria da Penha nas escolas.
É uma prateleira tão interessante que, por mais que a mulher tenha falta de instrução, ela tem condições de entender. Cada local onde tem mulheres pode ter uma prateleira dessa, porque ela traz instruções elementares sobre isso. O beabá tem que começar nos nossos ambientes de trabalho, nas nossas escolas. A gente precisa que a lei Maria da Penha seja trabalhada nas escolas do Ensino Fundamental ao Ensino Superior. A gente se decepciona com quem estuda, faz curso superior e diminui as mulheres, luta contra as mulheres. Mulheres e homens comprometidos com o bem da sociedade têm que abraçar a causa das mulheres”.