O Natal da polarização: Ataque de Zezé di Camargo ao SBT antecipa eleições 2026
Por Carlos Frederico Pereira da Silva Gama, colaborador do SRzd A inauguração do SBT News, em 12 de Dezembro de 2025, passaria despercebida em outras épocas. O retorno do jornalismo à grade da emissora paulistana foi uma notícia bem-vinda, em tempos de enorme concorrência digital contra a TV aberta. O retorno do jornalismo especializado coincidiu […]
PORRedação SRzd19/12/2025|
6 min de leitura
Show de Zezé Di Camargo e Luciano. Foto: SRzd/Juliana Dias
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Por Carlos Frederico Pereira da Silva Gama, colaborador do SRzd
A inauguração do SBT News, em 12 de Dezembro de 2025, passaria despercebida em outras épocas. O retorno do jornalismo à grade da emissora paulistana foi uma notícia bem-vinda, em tempos de enorme concorrência digital contra a TV aberta.
O retorno do jornalismo especializado coincidiu com as vésperas do calendário eleitoral do ano novo. A cerimônia de lançamento, sintomaticamente, reuniu autoridades de todos os poderes do país – incluindo o presidente e vice da República, o governador de São Paulo, o presidente do Supremo Tribunal Federal e o procurador-geral da República.
Outrora, a lista de convidados do mundo político num evento televisivo seria, se muito, assunto para colunas sociais dos jornais impressos. A novidade do dia, parecia, foi a fala de uma inteligência artificial mimetizando Silvio Santos para anunciar o novo programa.
No ambiente polarizado que se tornou o Brasil de 2025, porém, o evento do SBT teve repercussão inesperada, transcendendo os canais da comunicação de massa, para se tornar um dos eventos políticos inaugurais das eleições de 2026.
Estrela do especial natalino do SBT (“Natal é Amor”), o cantor sertanejo Zezé di Camargo reagiu com indignação às presenças do presidente Lula e do ministro do STF Alexandre de Moraes na inauguração do SBT News. Em vídeo divulgado em suas redes sociais, Zezé repreendeu as filhas de Silvio Santos por “trair” a herança política e moral do comunicador, e prosseguiu com uma grave acusação: a cúpula do SBT se prostituiu ao Palácio do Planalto, concedendo propaganda eleitoral gratuita ao governo no poder. Por fim, Zezé sugeriu que o especial de Natal fosse cancelado antes da exibição, em 17 de Dezembro.
Em carta aberta, a direção do SBT – encabeçada pela presidente Daniela Abravanel Beyruti – cancelou o especial de Natal, e foi além. O canal fez um manifesto pela liberdade de imprensa e isenção jornalística, ao afirmar que atuará “sem viés, sem algoritmo”, noticiando sem “divisão e raiva entre as partes” e sem “ser nutrido por inteligência artificial”.
A atitude do SBT surpreendeu, não pelo tom, mas pela repercussão. As expectativas frustradas pelo cancelamento do especial de Natal (que, além de Zezé, contou com as participações de Alexandre Pires e Paula Fernandes) ficaram em segundo plano, diante da relevância política de se contrapor à reação do sertanejo e da oposição bolsonarista, mobilizada em prol do Projeto de Lei da Dosimetria (aprovado em 17 de Dezembro).
No Natal da polarização, as relações sociais foram emparedadas pelas candidaturas e o jornalismo – outrora repositório da opinião pública e da liberdade de opinar e divergir – foi condenado no tribunal das patrulhas digitais pró ou contra os governos de ocasião. Longe de constituir uma especialidade nacional, o uso político de redes sociais para antagonizar o dia-a-dia marcou a terceira década do século 21 em escala global. Comediantes, celebridades, influencers e milionários deixaram a Internet rumo às residências oficiais, monetizados e empoderados pelo ódio e ativismo digital de milhões de desconhecidos, interconectados por algoritmos e plataformas da tecnologia liquida.
O Brasil é um dos países mais intensamente conectados digitalmente. No cenário global, somos um caso típico. O que temos de peculiar é a fragilidade das instituições democráticas, diante da escalada da política dos algoritmos.
Apenas quatro décadas após o fim da última ditadura, o Brasil convive mal com as liberdades conquistadas a duras penas. As instituições republicanas batem cabeça umas contra as outras, mesmo quando tentam se favorecer mutuamente – quando, por exemplo, o Executivo se ampara no Judiciário para evitar a anistia do Legislativo aos condenados por golpe de estado. Muitos eleitos em 2022 preferiram perder mandatos ou fugir a enfrentar as consequências de suas condutas no ambiente democrático – desvalorizando a politica.
A política dos algoritmos extrai sua intensidade de conflitos reais, maximizados pela tecnologia. Entretanto, na medida em que não se interessa pelos interesses daqueles que não dispõe de plataformas políticas, é uma forma míope de fazer política – poucas celebridades monopolizam seus holofotes – que se torna antidemocrática. O século 21 foi marcado por práticas políticas concentradas nas mãos de grandes fortunas e fama, frustrando as expectativas de democratização global após o fim da Guerra Fria.
A resposta firme do SBT a Zezé di Camargo – em defesa das prerrogativas democráticas do jornalismo e do pluralismo político – abriu a temporada eleitoral de 2026. Também emitiu um sinal de alerta: a democracia não é imune à polarização. Nem o Natal está à salvo do ódio digital, mobilizado por aqueles que dele se beneficiam em detrimento do bem comum. Em sociedades globalizadas via tecnologia, o que fazemos nas redes sociais impacta decisivamente direitos nos mundos analógicos do contatos face-a-face. O acesso à tecnologia não garante que todos participarão igualmente da sociedade.
*Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do portal SRzd
Sobre Carlos Frederico Pereira da Silva Gama: Escritor, poeta, cronista, doutor em Relações Internacionais pela PUC-Rio, fundador do BRICS Policy Center, professor da Shiv Nadar University (Índia), cinéfilo e leitor voraz, fã da Fórmula 1 e da cultura pop, líder das bandas independentes Oblique, EXXC e Still That.
Escreveu para a Folha de São Paulo, Jornal do Brasil, Correio Braziliense, O Dia, Brasil Econômico, Portal R7, Observatório da Imprensa e publicações acadêmicas como Global Governance e E-International Relations. É colunista de música e cinema do blog de cultura pop Cultecléticos.
Publicou quatro livros – “Surrealogos” (2012), “Modernity at Risk: Complex Emergencies, Humanitarianism, Sovereignty” (2012), “Após a Guerra, Estabilidade? Mudanças Institucionais nas Operações de Paz da ONU (1992-2000)” (2016) e “Ensaios Globais: da Primavera Árabe ao Brexit (2011-2020)” (2022).
Por Carlos Frederico Pereira da Silva Gama, colaborador do SRzd
A inauguração do SBT News, em 12 de Dezembro de 2025, passaria despercebida em outras épocas. O retorno do jornalismo à grade da emissora paulistana foi uma notícia bem-vinda, em tempos de enorme concorrência digital contra a TV aberta.
O retorno do jornalismo especializado coincidiu com as vésperas do calendário eleitoral do ano novo. A cerimônia de lançamento, sintomaticamente, reuniu autoridades de todos os poderes do país – incluindo o presidente e vice da República, o governador de São Paulo, o presidente do Supremo Tribunal Federal e o procurador-geral da República.
Outrora, a lista de convidados do mundo político num evento televisivo seria, se muito, assunto para colunas sociais dos jornais impressos. A novidade do dia, parecia, foi a fala de uma inteligência artificial mimetizando Silvio Santos para anunciar o novo programa.
No ambiente polarizado que se tornou o Brasil de 2025, porém, o evento do SBT teve repercussão inesperada, transcendendo os canais da comunicação de massa, para se tornar um dos eventos políticos inaugurais das eleições de 2026.
Estrela do especial natalino do SBT (“Natal é Amor”), o cantor sertanejo Zezé di Camargo reagiu com indignação às presenças do presidente Lula e do ministro do STF Alexandre de Moraes na inauguração do SBT News. Em vídeo divulgado em suas redes sociais, Zezé repreendeu as filhas de Silvio Santos por “trair” a herança política e moral do comunicador, e prosseguiu com uma grave acusação: a cúpula do SBT se prostituiu ao Palácio do Planalto, concedendo propaganda eleitoral gratuita ao governo no poder. Por fim, Zezé sugeriu que o especial de Natal fosse cancelado antes da exibição, em 17 de Dezembro.
Em carta aberta, a direção do SBT – encabeçada pela presidente Daniela Abravanel Beyruti – cancelou o especial de Natal, e foi além. O canal fez um manifesto pela liberdade de imprensa e isenção jornalística, ao afirmar que atuará “sem viés, sem algoritmo”, noticiando sem “divisão e raiva entre as partes” e sem “ser nutrido por inteligência artificial”.
A atitude do SBT surpreendeu, não pelo tom, mas pela repercussão. As expectativas frustradas pelo cancelamento do especial de Natal (que, além de Zezé, contou com as participações de Alexandre Pires e Paula Fernandes) ficaram em segundo plano, diante da relevância política de se contrapor à reação do sertanejo e da oposição bolsonarista, mobilizada em prol do Projeto de Lei da Dosimetria (aprovado em 17 de Dezembro).
No Natal da polarização, as relações sociais foram emparedadas pelas candidaturas e o jornalismo – outrora repositório da opinião pública e da liberdade de opinar e divergir – foi condenado no tribunal das patrulhas digitais pró ou contra os governos de ocasião. Longe de constituir uma especialidade nacional, o uso político de redes sociais para antagonizar o dia-a-dia marcou a terceira década do século 21 em escala global. Comediantes, celebridades, influencers e milionários deixaram a Internet rumo às residências oficiais, monetizados e empoderados pelo ódio e ativismo digital de milhões de desconhecidos, interconectados por algoritmos e plataformas da tecnologia liquida.
O Brasil é um dos países mais intensamente conectados digitalmente. No cenário global, somos um caso típico. O que temos de peculiar é a fragilidade das instituições democráticas, diante da escalada da política dos algoritmos.
Apenas quatro décadas após o fim da última ditadura, o Brasil convive mal com as liberdades conquistadas a duras penas. As instituições republicanas batem cabeça umas contra as outras, mesmo quando tentam se favorecer mutuamente – quando, por exemplo, o Executivo se ampara no Judiciário para evitar a anistia do Legislativo aos condenados por golpe de estado. Muitos eleitos em 2022 preferiram perder mandatos ou fugir a enfrentar as consequências de suas condutas no ambiente democrático – desvalorizando a politica.
A política dos algoritmos extrai sua intensidade de conflitos reais, maximizados pela tecnologia. Entretanto, na medida em que não se interessa pelos interesses daqueles que não dispõe de plataformas políticas, é uma forma míope de fazer política – poucas celebridades monopolizam seus holofotes – que se torna antidemocrática. O século 21 foi marcado por práticas políticas concentradas nas mãos de grandes fortunas e fama, frustrando as expectativas de democratização global após o fim da Guerra Fria.
A resposta firme do SBT a Zezé di Camargo – em defesa das prerrogativas democráticas do jornalismo e do pluralismo político – abriu a temporada eleitoral de 2026. Também emitiu um sinal de alerta: a democracia não é imune à polarização. Nem o Natal está à salvo do ódio digital, mobilizado por aqueles que dele se beneficiam em detrimento do bem comum. Em sociedades globalizadas via tecnologia, o que fazemos nas redes sociais impacta decisivamente direitos nos mundos analógicos do contatos face-a-face. O acesso à tecnologia não garante que todos participarão igualmente da sociedade.
*Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do portal SRzd
Sobre Carlos Frederico Pereira da Silva Gama: Escritor, poeta, cronista, doutor em Relações Internacionais pela PUC-Rio, fundador do BRICS Policy Center, professor da Shiv Nadar University (Índia), cinéfilo e leitor voraz, fã da Fórmula 1 e da cultura pop, líder das bandas independentes Oblique, EXXC e Still That.
Escreveu para a Folha de São Paulo, Jornal do Brasil, Correio Braziliense, O Dia, Brasil Econômico, Portal R7, Observatório da Imprensa e publicações acadêmicas como Global Governance e E-International Relations. É colunista de música e cinema do blog de cultura pop Cultecléticos.
Publicou quatro livros – “Surrealogos” (2012), “Modernity at Risk: Complex Emergencies, Humanitarianism, Sovereignty” (2012), “Após a Guerra, Estabilidade? Mudanças Institucionais nas Operações de Paz da ONU (1992-2000)” (2016) e “Ensaios Globais: da Primavera Árabe ao Brexit (2011-2020)” (2022).