Quando o samba deixa de ser coadjuvante

  • Icon instagram_blue
  • Icon youtube_blue
  • Icon x_blue
  • Icon facebook_blue
  • Icon google_blue

*Por José Leonídio Pereira Revisitar o passado nem sempre é um exercício de nostalgia; às vezes é um gesto de reconhecimento. Ao reabrir antigos textos escritos quando estive imerso no universo do samba, reencontrei personagens que, embora anônimos para muitos, sempre foram protagonistas para mim: os sambistas. Daquele período nasceram contos e crônicas sobre o […]

POR Redação SRzd 22/2/2026| 4 min de leitura

Desfile do Grupo Especial 2026. Foto: Juliana Dias/SRzd

Desfile do Grupo Especial 2026. Foto: Juliana Dias/SRzd

| Siga-nos Google News

*Por José Leonídio Pereira

Revisitar o passado nem sempre é um exercício de nostalgia; às vezes é um gesto de reconhecimento. Ao reabrir antigos textos escritos quando estive imerso no universo do samba, reencontrei personagens que, embora anônimos para muitos, sempre foram protagonistas para mim: os sambistas.

Daquele período nasceram contos e crônicas sobre o cotidiano de homens e mulheres que sustentam a cultura popular com disciplina, devoção e pertencimento. Histórias que deram origem ao livro Eu Sou do Samba, lançado recentemente, e que reafirmam a convicção de o espetáculo começa muito antes da avenida.

Mais do que uma reunião de memórias, Eu Sou do Samba é um recorte humano do carnaval. A obra percorre bastidores, quadras, ensaios e conversas de esquina para revelar o que raramente ganha manchete: a formação do ritmista, o orgulho de vestir a camisa da escola, a herança transmitida entre gerações. O livro propõe um deslocamento de foco — da alegoria monumental para o indivíduo que a constrói. Ao transformar o sambista anônimo em personagem central, reafirma o samba como identidade, memória coletiva e instrumento de mobilidade simbólica e social.

Em 2026, a homenagem da Grêmio Recreativo Escola de Samba Unidos do Viradouro ao mestre de bateria Mestre Ciça reforçou essa percepção. Nascido no Morro de São Carlos, berço da histórica Deixa Falar (1928) — agremiação que ajudou a consolidar o modelo das escolas de samba no Rio —, Ciça percorreu todos os degraus possíveis na trajetória de um sambista. Sua história sintetiza a força comunitária que sustenta o carnaval.

No desfile, essa valorização das raízes pôde ser percebida não apenas na homenagem explícita, mas na centralidade da bateria como narrativa estética e emocional. A cadência precisa, os desenhos rítmicos e a vibração coletiva evidenciaram que o coração da escola pulsa na comunidade. O protagonismo do mestre simbolizou aquilo que o livro já apontava: antes do espetáculo televisionado, existe uma história construída em território, disciplina e pertencimento.

O samba organizado em escolas ganhou forma nas primeiras décadas do século XX, estruturando-se como movimento cultural das camadas populares. Ao longo do tempo, o que começou como expressão periférica transformou-se em patrimônio cultural do Brasil e vitrine internacional do Rio de Janeiro.

Hoje, o carnaval carioca é também motor econômico. Inserido no conceito de economia criativa — setor que engloba atividades baseadas em capital intelectual, cultura e inovação —, o evento movimenta cadeias produtivas que vão da indústria têxtil ao turismo, da cenografia à gastronomia. Gera milhares de empregos diretos e indiretos, ativa serviços, fortalece marcas e projeta a cidade globalmente. As escolas de samba funcionam como verdadeiros polos culturais, mantendo atividades sociais e artísticas durante todo o ano.

Por trás das alegorias monumentais e da transmissão televisiva, há ritmistas, aderecistas, costureiras, coreógrafos, compositores e diretores de harmonia. Trabalhadores que raramente aparecem, mas que carregam o compasso do surdo — o coração do samba. Quando uma escola homenageia um mestre formado na própria comunidade, não celebra apenas uma trajetória individual; reconhece a espinha dorsal do espetáculo.

A vitória, nesses casos, ultrapassa o resultado oficial. É a consagração da simplicidade, da disciplina e do pertencimento. É a reafirmação de que a cultura carioca permanece viva porque continua enraizada em seus territórios.

Eu Sou do Samba reafirma essa tese: o samba nunca foi coadjuvante. Ele é identidade, memória e força econômica. E enquanto houver quem mantenha aceso o ritmo nas quadras e comunidades, o carnaval seguirá sendo não apenas festa, mas patrimônio cultural e potência criativa do país.

*Autor de Eu Sou do Samba e outros sete livros, é um estudioso do Carnaval

Arpoador

Rodapé - carnaval rio

*Por José Leonídio Pereira

Revisitar o passado nem sempre é um exercício de nostalgia; às vezes é um gesto de reconhecimento. Ao reabrir antigos textos escritos quando estive imerso no universo do samba, reencontrei personagens que, embora anônimos para muitos, sempre foram protagonistas para mim: os sambistas.

Daquele período nasceram contos e crônicas sobre o cotidiano de homens e mulheres que sustentam a cultura popular com disciplina, devoção e pertencimento. Histórias que deram origem ao livro Eu Sou do Samba, lançado recentemente, e que reafirmam a convicção de o espetáculo começa muito antes da avenida.

Mais do que uma reunião de memórias, Eu Sou do Samba é um recorte humano do carnaval. A obra percorre bastidores, quadras, ensaios e conversas de esquina para revelar o que raramente ganha manchete: a formação do ritmista, o orgulho de vestir a camisa da escola, a herança transmitida entre gerações. O livro propõe um deslocamento de foco — da alegoria monumental para o indivíduo que a constrói. Ao transformar o sambista anônimo em personagem central, reafirma o samba como identidade, memória coletiva e instrumento de mobilidade simbólica e social.

Em 2026, a homenagem da Grêmio Recreativo Escola de Samba Unidos do Viradouro ao mestre de bateria Mestre Ciça reforçou essa percepção. Nascido no Morro de São Carlos, berço da histórica Deixa Falar (1928) — agremiação que ajudou a consolidar o modelo das escolas de samba no Rio —, Ciça percorreu todos os degraus possíveis na trajetória de um sambista. Sua história sintetiza a força comunitária que sustenta o carnaval.

No desfile, essa valorização das raízes pôde ser percebida não apenas na homenagem explícita, mas na centralidade da bateria como narrativa estética e emocional. A cadência precisa, os desenhos rítmicos e a vibração coletiva evidenciaram que o coração da escola pulsa na comunidade. O protagonismo do mestre simbolizou aquilo que o livro já apontava: antes do espetáculo televisionado, existe uma história construída em território, disciplina e pertencimento.

O samba organizado em escolas ganhou forma nas primeiras décadas do século XX, estruturando-se como movimento cultural das camadas populares. Ao longo do tempo, o que começou como expressão periférica transformou-se em patrimônio cultural do Brasil e vitrine internacional do Rio de Janeiro.

Hoje, o carnaval carioca é também motor econômico. Inserido no conceito de economia criativa — setor que engloba atividades baseadas em capital intelectual, cultura e inovação —, o evento movimenta cadeias produtivas que vão da indústria têxtil ao turismo, da cenografia à gastronomia. Gera milhares de empregos diretos e indiretos, ativa serviços, fortalece marcas e projeta a cidade globalmente. As escolas de samba funcionam como verdadeiros polos culturais, mantendo atividades sociais e artísticas durante todo o ano.

Por trás das alegorias monumentais e da transmissão televisiva, há ritmistas, aderecistas, costureiras, coreógrafos, compositores e diretores de harmonia. Trabalhadores que raramente aparecem, mas que carregam o compasso do surdo — o coração do samba. Quando uma escola homenageia um mestre formado na própria comunidade, não celebra apenas uma trajetória individual; reconhece a espinha dorsal do espetáculo.

A vitória, nesses casos, ultrapassa o resultado oficial. É a consagração da simplicidade, da disciplina e do pertencimento. É a reafirmação de que a cultura carioca permanece viva porque continua enraizada em seus territórios.

Eu Sou do Samba reafirma essa tese: o samba nunca foi coadjuvante. Ele é identidade, memória e força econômica. E enquanto houver quem mantenha aceso o ritmo nas quadras e comunidades, o carnaval seguirá sendo não apenas festa, mas patrimônio cultural e potência criativa do país.

*Autor de Eu Sou do Samba e outros sete livros, é um estudioso do Carnaval

Arpoador

Rodapé - carnaval rio

Notícias Relacionadas

Ver tudo
Bloco de rua. Foto: Reprodução da TV

Comportamento. Com o Carnaval, cresce também o discurso entre casais de que “uma folga na relação” pode ser saudável, inclusive abrindo o relacionamento por alguns dias para curtirem a festa e novas experiências. Mas a realidade costuma ser menos glamourosa, casais que tentam improvisar regras de relacionamento aberto correm maior risco de enfrentar ciúmes, inseguranças […]

Relacionamento aberto no Carnaval: por que a ‘liberdade temporária’ pode gerar conflitos nos casais

3 min de leitura