Passistas masculinos podem rebolar como as meninas?
A consagrada passista Aldione, uma das integrantes da equipe de comentaristas do SRzd Carnaval, – ao lado dos colunistas Hélio Rainho e Fábio Batista- , foi o centro das atenções de uma polêmica que agitou o mundo samba. Chamou atenção a sua análise (veja abaixo) sobre a ala de passistas masculinos da Estácio de Sá. O […]
PORMárcio Anastacio*25/1/2017|
8 min de leitura
Diretor de passistas da Estácio de Sá, Giliard Pinheiro, causa polêmica ao permitir samba livre em sua ala / Foto: Jeanine Gall
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A consagrada passista Aldione, uma das integrantes da equipe de comentaristas do SRzd Carnaval, – ao lado dos colunistas Hélio Rainho e Fábio Batista- , foi o centro das atenções de uma polêmica que agitou o mundo samba. Chamou atenção a sua análise (veja abaixo) sobre a ala de passistas masculinos da Estácio de Sá.
O time de comentaristas do portal acendeu o debate sobre a performance da equipe comandada pelo coreógrafo Giliard Pinheiro no último domingo (22), quando a escola realizou o seu ensaio técnico na Marquês de Sapucaí.
“Diretores, policiem os seus passistas masculinos. Se eles querem ser passistas femininos, acredito eu que devem procurar outro setor da escola. Vir numa ala de passistas masculinos e rebolar mais que as meninas, fica difícil para gente, porque a gente não sabe nem o que a gente está analisando”, disse a nossa comentarista Aldione Sena em vídeo publicado pelo SRzd Carnaval. Veja:
Em tempo de desconstrução de padrões ou regras estabelecidas pela sociedade, a performance dos passistas da Estácio se tornou epicentro da discussão sobre a quebra do padrão heteronormativo (forma de comportamento heterossexual) dentro da coreografia de passistas masculinos.
Para muitos, eles chegam a competir com as passistas mulheres, usando elementos de mulata, quando o papel deles deveria ser interpretar um malandro. Para outros, os dançarinos não precisam sambar como malandros, já que malandro é um personagem, além de que o samba pela sua origem natural é transgressor e permite novos formatos.
Sobre a polêmica, os passistas da escola foram orientados a não se manifestarem publicamente sobre o assunto, mas a reportagem do SRzd Carnaval apurou que muitos deles, principalmente os que quebram os padrões heteronormativos na hora de sambar, se ofenderam diretamente com as críticas.
Alguns se sentiram injustiçados por não levarem em consideração a preparação de um ano inteiro de trabalho e outros sentiram-se fortalecidos pelas críticas revelando não terem a intenção de mudar o formato de apresentação do grupo.
Quando você entra na Avenida, você tem que fazer o papel de homem. O Giliard relaxou um pouco com os meninos.
Em entrevista, o diretor da ala de passistas da Estácio de Sá, Giliard Pinheiro, justificou a performance dos seus passistas e defendeu o time. “Eu deixo o samba livre. Não cobro que ninguém sambe como malandro. Acredito que o samba é show, cada um tem o seu. Eu não cobro nenhum padrão. O samba do meu passista tem que ter movimento também com o corpo. Eu gosto de levantar poeira. Confio na minha equipe e já recebi os elogios da minha escola”, finalizou o coreógrafo.
Sobre o assunto, consultamos algumas personalidades do samba. O passista do Salgueiro e da Império da Tijuca, Gabriel Gomes, não economizou nas críticas. “Quando você entra na Avenida, você tem que fazer o papel de homem. O Giliard relaxou um pouco com os meninos. A ala está sem base masculina. Isso acaba denegrindo a imagem da escola. Homem sempre foi homem e mulher é mulher”, pontuou o sambista.
O pesquisador e integrante do departamento cultural da Estácio de Sá, Yuri Ribeiro, acredita que o debate é válido e torna visível as transformações culturais. “Sambar é uma arte transgressora também, não podemos esquecer disso. A malta de capoeira e o samba eram parte de um povo marginalizado. É muito difícil equilibrar isso. De fato, tem uma dose grandona de discurso machista. Hoje, na ala da Estácio, não há um que sambe de forma tradicional”, ressaltou o integrante da agremiação que emitiu uma opinião pessoal.
A coordenadora de passistas femininas da Portela, Nilce Fran, não economizou nas críticas. “A corte está sendo deturpada. Estão tentando mudar, mas não está dando certo. O homem tem sua forma de se apresentar. Estamos vendo homem se quebrando igual a passista mulher. Não dá para rebolar como mulher. Não tem como mudar”, destacou a portelense.
Já o passista da Mangueira Daniel Nascimento rebateu a opinião de quem acredita que passistas masculinos devem sambar de acordo com um padrão. “O samba nasceu sob uma cultura machista. Dizem que o samba é inclusivo, mas é até certo ponto. Falou de identidade de gênero, o debate para aí. Vivemos sob uma cultura de opressão e quem não sofre essa opressão acha que ela não existe. Cada um tem o seu corpo. Eu não acredito em doutrinação de corpos. Também respeito a opinião de todos”, finalizou o mangueirense.
Para Valcir Pelé, coordenador da ala de passistas masculinos da Portela, uma das mais tradicionais do Carnaval, a forma de sambar deve seguir o que está posto há muito tempo. “O passista masculino tem que cortejar a mulata. Isso é assim desde o início. Botar o passista na Avenida de outra forma… É como se chamasse para desempenhar um papel e esse papel não ser desempenhado”.
Passista da Estácio de Sá. Foto: Jeanine Gall
O coordenador de passistas masculinos do Paraíso do Tuiuti, Alex Coutinho, acredita que existe uma confusão do papel do passista e do malandro. “Ala de passista é uma coisa, malandro é um personagem. Passista tem que levar o gás para a Avenida. O samba não existe parâmetro. Eu procuro deixar meus passistas soltos. As pessoas confundem. Passista só entra ‘malandreado’ na Avenida se estiver dentro do enredo. Se a gente fica preso a certas tradições, o Carnaval não evolui. As pessoas desrespeitam o trabalho alheio por ter uma opinião diferente”, finaliza.
A comentarista do SRzd Carnaval, Aldione Sena, falou sobre o debate que gerou a partir da sua colocação sobre a performance dos passistas que sambam fora dos padrões. “O meu comentário foi um alerta aos coordenadores de passistas masculinos. Não dá para um malandro entrar sambando dando nas cadeiras. É muito mulher. É uma questão técnica, mas se nem Jesus agradou a todos, quem sou eu para agradar? Eu não fiz na intenção de gerar polêmica. Foi um comentário para orientar os diretores. Esse é o meu papel. Foi um comentário que eu já queria ter feito há muito tempo”, disse.
Leitores do SRzd Carnaval entram na polêmica para opinar sobre o assunto
Com uma interação forte entre leitores e a plataforma multimídia, o SRzd Carnaval traz a opinião do público que não ficou fora desde debate. através da mídias sociais, eles revelaram a sua visão sobre o tema e nós selecionamos algumas ponderações para inserir neste reportagem.
O professor de história, Cristiano Lacerda, se preocupa com pontuação das escolas e acrescenta: “acredito que se o passista for homem tem que sambar como homem, se sua identidade de gênero for mulher, que seja então passista mulher para poder se expressar livremente, assim o componente não corre o risco de prejudicar a sua escola na hora do julgamento do quesito evolução”.
Já a estudante e vendedora, Luana Gomes, comentou que o samba deve ser inclusivo. “Sou a favor da inovação, de uma cabeça mais aberta. Se um rapaz tem um samba ‘afeminado’, ótimo. Ele não deixa de ter menos samba por isso! Que as gays, as trans, os homens, as mulheres, TODOS, sejam julgados, elogiados, falados, pelo que tem no pé, e não no resto do corpo. Carnaval é a cultura que une as diferenças”, disse a frequentadora da quadra da Rocinha.
Tem que ter bicha afeminada pintosa sambando na cara da sociedade, tem que ter sapatão e travesti, desfilando como se sentir bem.
O leitor E. S. que mantemos a identidade preservada, elogiou a cobertura e as análises dos nossos comentaristas. ” Excelentes comentários com muito critério e isenção. Quem milita no segmento passista esta fechado com tudo que vocês colocaram principalmente no que tange a postura e sapateado dos passistas masculinos, as escolas tem por obrigação zelar por essa tradição do samba duro, sem rebolado”, disse.
Para a artista, Lara Lima, o Carnaval é historicamente construído pelos LGBT’s e deve ser um espaço livre de expressão. “Primeiro que esse discurso de ‘sambar como homem’ é o fim da picada, né? Tem que ter bicha afeminada pintosa sambando na cara da sociedade, tem que ter sapatão e travesti, desfilando como se sentir bem. Senão não é uma festa do povo. Acho que o debate tem que ser: nós construímos o carnaval e queremos ter o direito de sambar como o nosso corpo se expressa”, finaliza.
Como veículo especializado, o SRzd Carnaval acompanha as transformações culturais no mundo do samba e informa sobre os movimentos que este universo faz. O debate sobre quebra de paradigma em diversos setores do Carnaval é colocado em pauta para contribuir com a manutenção do samba como uma cultura viva que, por vezes rompe tradições, ou se mantém preservada. Confira aqui as análises dos nossos comentaristas na íntegra.
Qual a sua opinião? Responda a enquete abaixo:
A consagrada passista Aldione, uma das integrantes da equipe de comentaristas do SRzd Carnaval, – ao lado dos colunistas Hélio Rainho e Fábio Batista- , foi o centro das atenções de uma polêmica que agitou o mundo samba. Chamou atenção a sua análise (veja abaixo) sobre a ala de passistas masculinos da Estácio de Sá.
O time de comentaristas do portal acendeu o debate sobre a performance da equipe comandada pelo coreógrafo Giliard Pinheiro no último domingo (22), quando a escola realizou o seu ensaio técnico na Marquês de Sapucaí.
“Diretores, policiem os seus passistas masculinos. Se eles querem ser passistas femininos, acredito eu que devem procurar outro setor da escola. Vir numa ala de passistas masculinos e rebolar mais que as meninas, fica difícil para gente, porque a gente não sabe nem o que a gente está analisando”, disse a nossa comentarista Aldione Sena em vídeo publicado pelo SRzd Carnaval. Veja:
Em tempo de desconstrução de padrões ou regras estabelecidas pela sociedade, a performance dos passistas da Estácio se tornou epicentro da discussão sobre a quebra do padrão heteronormativo (forma de comportamento heterossexual) dentro da coreografia de passistas masculinos.
Para muitos, eles chegam a competir com as passistas mulheres, usando elementos de mulata, quando o papel deles deveria ser interpretar um malandro. Para outros, os dançarinos não precisam sambar como malandros, já que malandro é um personagem, além de que o samba pela sua origem natural é transgressor e permite novos formatos.
Sobre a polêmica, os passistas da escola foram orientados a não se manifestarem publicamente sobre o assunto, mas a reportagem do SRzd Carnaval apurou que muitos deles, principalmente os que quebram os padrões heteronormativos na hora de sambar, se ofenderam diretamente com as críticas.
Alguns se sentiram injustiçados por não levarem em consideração a preparação de um ano inteiro de trabalho e outros sentiram-se fortalecidos pelas críticas revelando não terem a intenção de mudar o formato de apresentação do grupo.
Quando você entra na Avenida, você tem que fazer o papel de homem. O Giliard relaxou um pouco com os meninos.
Em entrevista, o diretor da ala de passistas da Estácio de Sá, Giliard Pinheiro, justificou a performance dos seus passistas e defendeu o time. “Eu deixo o samba livre. Não cobro que ninguém sambe como malandro. Acredito que o samba é show, cada um tem o seu. Eu não cobro nenhum padrão. O samba do meu passista tem que ter movimento também com o corpo. Eu gosto de levantar poeira. Confio na minha equipe e já recebi os elogios da minha escola”, finalizou o coreógrafo.
Sobre o assunto, consultamos algumas personalidades do samba. O passista do Salgueiro e da Império da Tijuca, Gabriel Gomes, não economizou nas críticas. “Quando você entra na Avenida, você tem que fazer o papel de homem. O Giliard relaxou um pouco com os meninos. A ala está sem base masculina. Isso acaba denegrindo a imagem da escola. Homem sempre foi homem e mulher é mulher”, pontuou o sambista.
O pesquisador e integrante do departamento cultural da Estácio de Sá, Yuri Ribeiro, acredita que o debate é válido e torna visível as transformações culturais. “Sambar é uma arte transgressora também, não podemos esquecer disso. A malta de capoeira e o samba eram parte de um povo marginalizado. É muito difícil equilibrar isso. De fato, tem uma dose grandona de discurso machista. Hoje, na ala da Estácio, não há um que sambe de forma tradicional”, ressaltou o integrante da agremiação que emitiu uma opinião pessoal.
A coordenadora de passistas femininas da Portela, Nilce Fran, não economizou nas críticas. “A corte está sendo deturpada. Estão tentando mudar, mas não está dando certo. O homem tem sua forma de se apresentar. Estamos vendo homem se quebrando igual a passista mulher. Não dá para rebolar como mulher. Não tem como mudar”, destacou a portelense.
Já o passista da Mangueira Daniel Nascimento rebateu a opinião de quem acredita que passistas masculinos devem sambar de acordo com um padrão. “O samba nasceu sob uma cultura machista. Dizem que o samba é inclusivo, mas é até certo ponto. Falou de identidade de gênero, o debate para aí. Vivemos sob uma cultura de opressão e quem não sofre essa opressão acha que ela não existe. Cada um tem o seu corpo. Eu não acredito em doutrinação de corpos. Também respeito a opinião de todos”, finalizou o mangueirense.
Para Valcir Pelé, coordenador da ala de passistas masculinos da Portela, uma das mais tradicionais do Carnaval, a forma de sambar deve seguir o que está posto há muito tempo. “O passista masculino tem que cortejar a mulata. Isso é assim desde o início. Botar o passista na Avenida de outra forma… É como se chamasse para desempenhar um papel e esse papel não ser desempenhado”.
Passista da Estácio de Sá. Foto: Jeanine Gall
O coordenador de passistas masculinos do Paraíso do Tuiuti, Alex Coutinho, acredita que existe uma confusão do papel do passista e do malandro. “Ala de passista é uma coisa, malandro é um personagem. Passista tem que levar o gás para a Avenida. O samba não existe parâmetro. Eu procuro deixar meus passistas soltos. As pessoas confundem. Passista só entra ‘malandreado’ na Avenida se estiver dentro do enredo. Se a gente fica preso a certas tradições, o Carnaval não evolui. As pessoas desrespeitam o trabalho alheio por ter uma opinião diferente”, finaliza.
A comentarista do SRzd Carnaval, Aldione Sena, falou sobre o debate que gerou a partir da sua colocação sobre a performance dos passistas que sambam fora dos padrões. “O meu comentário foi um alerta aos coordenadores de passistas masculinos. Não dá para um malandro entrar sambando dando nas cadeiras. É muito mulher. É uma questão técnica, mas se nem Jesus agradou a todos, quem sou eu para agradar? Eu não fiz na intenção de gerar polêmica. Foi um comentário para orientar os diretores. Esse é o meu papel. Foi um comentário que eu já queria ter feito há muito tempo”, disse.
Leitores do SRzd Carnaval entram na polêmica para opinar sobre o assunto
Com uma interação forte entre leitores e a plataforma multimídia, o SRzd Carnaval traz a opinião do público que não ficou fora desde debate. através da mídias sociais, eles revelaram a sua visão sobre o tema e nós selecionamos algumas ponderações para inserir neste reportagem.
O professor de história, Cristiano Lacerda, se preocupa com pontuação das escolas e acrescenta: “acredito que se o passista for homem tem que sambar como homem, se sua identidade de gênero for mulher, que seja então passista mulher para poder se expressar livremente, assim o componente não corre o risco de prejudicar a sua escola na hora do julgamento do quesito evolução”.
Já a estudante e vendedora, Luana Gomes, comentou que o samba deve ser inclusivo. “Sou a favor da inovação, de uma cabeça mais aberta. Se um rapaz tem um samba ‘afeminado’, ótimo. Ele não deixa de ter menos samba por isso! Que as gays, as trans, os homens, as mulheres, TODOS, sejam julgados, elogiados, falados, pelo que tem no pé, e não no resto do corpo. Carnaval é a cultura que une as diferenças”, disse a frequentadora da quadra da Rocinha.
Tem que ter bicha afeminada pintosa sambando na cara da sociedade, tem que ter sapatão e travesti, desfilando como se sentir bem.
O leitor E. S. que mantemos a identidade preservada, elogiou a cobertura e as análises dos nossos comentaristas. ” Excelentes comentários com muito critério e isenção. Quem milita no segmento passista esta fechado com tudo que vocês colocaram principalmente no que tange a postura e sapateado dos passistas masculinos, as escolas tem por obrigação zelar por essa tradição do samba duro, sem rebolado”, disse.
Para a artista, Lara Lima, o Carnaval é historicamente construído pelos LGBT’s e deve ser um espaço livre de expressão. “Primeiro que esse discurso de ‘sambar como homem’ é o fim da picada, né? Tem que ter bicha afeminada pintosa sambando na cara da sociedade, tem que ter sapatão e travesti, desfilando como se sentir bem. Senão não é uma festa do povo. Acho que o debate tem que ser: nós construímos o carnaval e queremos ter o direito de sambar como o nosso corpo se expressa”, finaliza.
Como veículo especializado, o SRzd Carnaval acompanha as transformações culturais no mundo do samba e informa sobre os movimentos que este universo faz. O debate sobre quebra de paradigma em diversos setores do Carnaval é colocado em pauta para contribuir com a manutenção do samba como uma cultura viva que, por vezes rompe tradições, ou se mantém preservada. Confira aqui as análises dos nossos comentaristas na íntegra.