Globo de Ouro 2026: Vitória brasileira e a guerra pela Warner
Por Ana Carolina Garcia, crítica de cinema do SRzd Realizada na noite do último domingo (11) no The Beverly Hilton Hotel, em Los Angeles, a 83ª cerimônia de entrega do Globo de Ouro sacudiu a temporada de premiações americana que tem o Oscar como o pote de ouro no final do arco-íris. Tradicionalmente a segunda maior […]
PORRedação SRzd13/1/2026|
9 min de leitura
Wagner Moura. Reprodução de vídeo
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Por Ana Carolina Garcia, crítica de cinema do SRzd
Realizada na noite do último domingo (11) no The Beverly Hilton Hotel, em Los Angeles, a 83ª cerimônia de entrega do Globo de Ouro sacudiu a temporada de premiações americana que tem o Oscar como o pote de ouro no final do arco-íris. Tradicionalmente a segunda maior premiação do cinema hollywoodiano, posto conquistado em 1944, quando a agora extinta Associação de Imprensa Estrangeira de Hollywood (Hollywood Foreign Press Association – HFPA), ainda sob o nome de Hollywood Association of Foreign Press Correspondents (HAFCO), entregou seus primeiros troféus, o Globo de Ouro expôs mudanças no cenário aparentemente fortalecido no Critics’ Choice Awards em 4 de janeiro.
A temporada atual tem concorrentes fortes que estão na disputa em pé de igualdade, mas a cerimônia realizada pela Golden Globe Foundation, responsável pelo Globo de Ouro desde a dissolução da HFPA há três anos, impulsionou ainda mais a corrida sobretudo nas categorias de atores coadjuvantes de cinema se comparada ao resultado do Critics’ Choice, concedido pela Critics Choice Association (CCA), a maior associação de críticos dos Estados Unidos e do Canadá. O Critics’ Choice consagrou Amy Madigan e Jacob Elordi como melhores atores coadjuvantes de cinema, respectivamente por “A Hora do Mal” (Weapons – 2025, EUA) e “Frankenstein” (Frankenstein – 2025, México / EUA); enquanto os Globos de Ouro dessas categorias foram entregues a Teyana Taylor, “Uma Batalha Após a Outra” (One Battle After Another – 2025, EUA), e Stellan Skarsgård, “Valor Sentimental” (Affeksjonsverdi – 2025, Noruega).
No entanto, o Globo de Ouro reforçou a rota de colisão entre nomes que, neste momento, estão recebendo, ou não, votos para a lista dos finalistas ao Oscar 2026 – os indicados ao prêmio máximo da comunidade hollywoodiana serão anunciados no próximo dia 22. São eles: os vencedores das categorias de atores em filme de comédia / musical, Thimothée Chalamet por “Marty Supreme” (Marty Supreme – 2025, Finlândia / EUA) e Rose Byrne por “Se eu tivesse pernas, eu te chutaria” (If I Had Legs I’d Kick You – 2025, EUA), e os atores vencedores por seus trabalhos em filme de drama, Wagner Moura por “O Agente Secreto” (O Agente Secreto – 2025, Brasil) e Jessie Buckley por “Hamnet: A vida antes de Hamlet” (Hamnet – 2025, Reino Unido / EUA).
Colocando seu nome no livro de História do Globo de Ouro como o primeiro brasileiro a ganhar a estatueta de melhor ator em filme de drama, um ano após Fernanda Torres cravar seu próprio nome no mesmo livro como a primeira brasileira agraciada pelo Globo de Ouro de atriz em filme de drama por “Ainda Estou Aqui” (Ainda Estou Aqui – 2024, Brasil), Wagner Moura se fortalece como nome possível entre os finalistas ao Oscar, mas seu caminho é mais desafiador que os trilhados pelos demais atores pelo fato de ser um brasileiro entre gigantes criados pela indústria hollywoodiana. Mas tem a seu favor o fato de ser um rosto conhecido na capital do cinema há muitos anos, algo que Torres não tinha há um ano. E isso também beneficia “O Agente Secreto”, de Kleber Mendonça Filho, que tem chamado a atenção no exterior desde o Festival de Cannes 2025 – o longa recebeu o Globo de Ouro e o Critics’ Choice de melhor filme em língua não-inglesa e se posiciona como um dos títulos favoritos na corrida pelo Oscar.
As vitórias de “O Agente Secreto” no último domingo são de extrema importância para o cinema brasileiro no cenário mundial, pois mostra que a produção audiovisual no Brasil tem capacidade de chegar a outros países e mercados com força e respeito. O filme de Kleber Mendonça Filho trilha o caminho há anos pavimentado, com muito suor, por cineastas como Walter Salles, que chegou ao Globo de Ouro e ao Oscar com “Central do Brasil” (Central do Brasil – 1998, Brasil) e “Ainda estou aqui” com indicações nas categorias de filme internacional (outrora chamada de melhor filme estrangeiro) e atriz (para mãe e filha, as Fernandas Montenegro e Torres), sendo que o segundo, além de vencer o Golden Boy de filme internacional, conquistou, também, uma indicação à categoria principal, a de melhor filme.
Com produção de Steven Spielberg e direção de Chloé Zhao, “Hamnet: A vida antes de Hamlet” surpreendeu ao ser anunciado como vencedor da categoria de melhor filme de drama, colocando-se como principal oponente de “Uma batalha após a outra”, de Paul Thomas Anderson, até o dia 15 de março, quando a Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood (Academy of Motion Picture Arts and Sciences – AMPAS) realizará a 98a cerimônia do Oscar.
Neste cenário, “Pecadores” (Sinners – 2025, EUA / Austrália / Canadá), dirigido por Ryan Coogler e estrelado por Michael B. Jordan, perde um pouco de força na corrida pelo Golden Boy. Mesmo apontado como um dos favoritos e, sem dúvida alguma, um dos melhores longas-metragens lançados no ano passado, “Pecadores” precisa impulsionar a campanha nos bastidores para brigar igualitariamente com os filmes de Anderson e Zhao, pois venceu somente dois dos sete Globos de Ouro aos quais concorria, os de melhor trilha sonora original (Ludwig Göransson) e conquista cinematográfica e de bilheteria.
Homenageadas pelo conjunto da obra com o Cecil B. DeMille Award (cinema) e Carol Burnett Award (televisão), Helen Mirren e Sarah Jessica Parker, respectivamente, receberam seus prêmios na Golden Eve, cerimônia realizada no dia 08 de janeiro. Esse modelo de cerimônia separada também é usado pela AMPAS e tem como um de seus objetivos agilizar a transmissão televisiva do Globo de Ouro para não tornar a experiência cansativa para o telespectador e, assim, manter o índice de audiência até o final do evento.
Globo de Ouro expõe a ansiedade da indústria na batalha pela Warner Bros
Enquanto os responsáveis pelas campanhas dos filmes batalham por indicações para seus representados, profissionais de todos os departamentos da indústria se preocupam com a “guerra” travada entre a Netflix e a Paramount pela aquisição da Warner Bros., estúdio centenário que pode sofrer mudanças drásticas em seu modus operandi caso seja adquirido pela gigante do streaming, que, de olho em assinantes, já manifestou o desejo de encurtar para 17 dias a janela de exibição, isto é, o intervalo entre o lançamento comercial nos cinemas e a estreia nas plataformas digitais e TV por assinatura, VoD, entre outros – a janela tradicional é de 90 dias, mas foi encurtada no período crítico da pandemia para que a população pudesse ter acesso a meios de entretenimento em meio ao lockdown.
A preocupação é válida sobretudo pelo fato de o cinema estar se recuperando economicamente dos efeitos colaterais tanto da pandemia quanto da greve de atores e roteiristas que assolou Hollywood há dois anos. Além disso, não se pode ignorar a crise criativa observada há décadas na capital do cinema, que precisa se reinventar urgentemente enquanto testemunha o distanciamento do público das salas de exibição, tanto pelo alto custo dos ingressos quanto pela ascensão do streaming. Contudo, é importante lembrar que a indústria sobreviveu à popularização da televisão, do videocassete e dos aparelhos de entretenimento doméstico que o sucederam, como DVD e blu-ray, tendo meios suficientes para se manter ativa se assim desejar e Ted Sarandos, CEO da Netflix, permitir.
A questão é mais ampla e complexa porque não se trata apenas da aquisição de mais um estúdio por plataforma de streaming (a Amazon concluiu a compra da MGM em 2022 por US$ 8,45 bilhões), mas, sim, da manutenção do cinema em sua essência e tradição, ou seja, da sala de exibição, historicamente local de socialização que concedem experiência completa ao espectador e, importantíssimo lembrar, a principal fonte de renda para que as engrenagens da indústria se mantenham em funcionamento pleno. Sem arrecadação de bilheterias, não haverá dinheiro para a produção de longas-metragens em larga escala e, consequentemente, a indústria cinematográfica irá a pique, tendo a bordo milhares de pessoas que perderão seus empregos e meios de sobrevivência.
Na plateia do luxuoso salão do The Beverly Hilton Hotel, Ted Sarandos testemunhou a defesa do modelo tradicional de cinema por vários profissionais, incluindo Stellan Skarsgård. Em seu discurso de agradecimento, o sueco disse que gostaria que o público assistisse a “Valor Sentimental” nos cinemas, lamentando o risco de extinção enfrentado por um dos meios de comunicação mais importantes do planeta. “Espero que você assista no cinema, porque eles são uma espécie extinta agora. No cinema, onde as luzes se apagam e você acaba compartilhando a emoção com outras pessoas. Isso é mágico. Cinema deve ser visto no cinema”, afirmou Skarsgård.
No final da noite, entre vitoriosos e derrotados, ficou nítido que, apesar de Sarandos afirmar não desejar findar com o cinema em sua essência e tradição, a indústria cinematográfica não abraça sua ideia. Hoje, o medo paira sobre a comunidade hollywoodiana e, também, sobre os exibidores. A guerra pelo controle da Warner, incluindo todo o seu catálogo e a gigante do streaming HBO Max, está longe de terminar e segue com uma batalha após a outra, garantindo o lugar no livro de História do cinema mundial como um dos capítulos mais nocivos para a sétima-arte e a todos que dela dependem.
+ assista ao discurso de agradecimento de Wagner Moura no Globo de Ouro 2026:
Sobre Ana Carolina Garcia: Formada em Comunicação Social e pós-graduada em Jornalismo Cultural, Ana Carolina Garcia é autora dos livros “A Fantástica Fábrica de Filmes – Como Hollywood se tornou a capital mundial do cinema” (2011), “Cinema no século XXI – Modelo tradicional na Era do Streaming” (2021) e “100 anos do Império Disney: Da Avenida Kingswell à conquista do universo” (2023). É vice-presidente da Associação de Críticos de Cinema do Rio de Janeiro (ACCRJ) desde 2021.
Por Ana Carolina Garcia, crítica de cinema do SRzd
Realizada na noite do último domingo (11) no The Beverly Hilton Hotel, em Los Angeles, a 83ª cerimônia de entrega do Globo de Ouro sacudiu a temporada de premiações americana que tem o Oscar como o pote de ouro no final do arco-íris. Tradicionalmente a segunda maior premiação do cinema hollywoodiano, posto conquistado em 1944, quando a agora extinta Associação de Imprensa Estrangeira de Hollywood (Hollywood Foreign Press Association – HFPA), ainda sob o nome de Hollywood Association of Foreign Press Correspondents (HAFCO), entregou seus primeiros troféus, o Globo de Ouro expôs mudanças no cenário aparentemente fortalecido no Critics’ Choice Awards em 4 de janeiro.
A temporada atual tem concorrentes fortes que estão na disputa em pé de igualdade, mas a cerimônia realizada pela Golden Globe Foundation, responsável pelo Globo de Ouro desde a dissolução da HFPA há três anos, impulsionou ainda mais a corrida sobretudo nas categorias de atores coadjuvantes de cinema se comparada ao resultado do Critics’ Choice, concedido pela Critics Choice Association (CCA), a maior associação de críticos dos Estados Unidos e do Canadá. O Critics’ Choice consagrou Amy Madigan e Jacob Elordi como melhores atores coadjuvantes de cinema, respectivamente por “A Hora do Mal” (Weapons – 2025, EUA) e “Frankenstein” (Frankenstein – 2025, México / EUA); enquanto os Globos de Ouro dessas categorias foram entregues a Teyana Taylor, “Uma Batalha Após a Outra” (One Battle After Another – 2025, EUA), e Stellan Skarsgård, “Valor Sentimental” (Affeksjonsverdi – 2025, Noruega).
No entanto, o Globo de Ouro reforçou a rota de colisão entre nomes que, neste momento, estão recebendo, ou não, votos para a lista dos finalistas ao Oscar 2026 – os indicados ao prêmio máximo da comunidade hollywoodiana serão anunciados no próximo dia 22. São eles: os vencedores das categorias de atores em filme de comédia / musical, Thimothée Chalamet por “Marty Supreme” (Marty Supreme – 2025, Finlândia / EUA) e Rose Byrne por “Se eu tivesse pernas, eu te chutaria” (If I Had Legs I’d Kick You – 2025, EUA), e os atores vencedores por seus trabalhos em filme de drama, Wagner Moura por “O Agente Secreto” (O Agente Secreto – 2025, Brasil) e Jessie Buckley por “Hamnet: A vida antes de Hamlet” (Hamnet – 2025, Reino Unido / EUA).
Colocando seu nome no livro de História do Globo de Ouro como o primeiro brasileiro a ganhar a estatueta de melhor ator em filme de drama, um ano após Fernanda Torres cravar seu próprio nome no mesmo livro como a primeira brasileira agraciada pelo Globo de Ouro de atriz em filme de drama por “Ainda Estou Aqui” (Ainda Estou Aqui – 2024, Brasil), Wagner Moura se fortalece como nome possível entre os finalistas ao Oscar, mas seu caminho é mais desafiador que os trilhados pelos demais atores pelo fato de ser um brasileiro entre gigantes criados pela indústria hollywoodiana. Mas tem a seu favor o fato de ser um rosto conhecido na capital do cinema há muitos anos, algo que Torres não tinha há um ano. E isso também beneficia “O Agente Secreto”, de Kleber Mendonça Filho, que tem chamado a atenção no exterior desde o Festival de Cannes 2025 – o longa recebeu o Globo de Ouro e o Critics’ Choice de melhor filme em língua não-inglesa e se posiciona como um dos títulos favoritos na corrida pelo Oscar.
As vitórias de “O Agente Secreto” no último domingo são de extrema importância para o cinema brasileiro no cenário mundial, pois mostra que a produção audiovisual no Brasil tem capacidade de chegar a outros países e mercados com força e respeito. O filme de Kleber Mendonça Filho trilha o caminho há anos pavimentado, com muito suor, por cineastas como Walter Salles, que chegou ao Globo de Ouro e ao Oscar com “Central do Brasil” (Central do Brasil – 1998, Brasil) e “Ainda estou aqui” com indicações nas categorias de filme internacional (outrora chamada de melhor filme estrangeiro) e atriz (para mãe e filha, as Fernandas Montenegro e Torres), sendo que o segundo, além de vencer o Golden Boy de filme internacional, conquistou, também, uma indicação à categoria principal, a de melhor filme.
Com produção de Steven Spielberg e direção de Chloé Zhao, “Hamnet: A vida antes de Hamlet” surpreendeu ao ser anunciado como vencedor da categoria de melhor filme de drama, colocando-se como principal oponente de “Uma batalha após a outra”, de Paul Thomas Anderson, até o dia 15 de março, quando a Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood (Academy of Motion Picture Arts and Sciences – AMPAS) realizará a 98a cerimônia do Oscar.
Neste cenário, “Pecadores” (Sinners – 2025, EUA / Austrália / Canadá), dirigido por Ryan Coogler e estrelado por Michael B. Jordan, perde um pouco de força na corrida pelo Golden Boy. Mesmo apontado como um dos favoritos e, sem dúvida alguma, um dos melhores longas-metragens lançados no ano passado, “Pecadores” precisa impulsionar a campanha nos bastidores para brigar igualitariamente com os filmes de Anderson e Zhao, pois venceu somente dois dos sete Globos de Ouro aos quais concorria, os de melhor trilha sonora original (Ludwig Göransson) e conquista cinematográfica e de bilheteria.
Homenageadas pelo conjunto da obra com o Cecil B. DeMille Award (cinema) e Carol Burnett Award (televisão), Helen Mirren e Sarah Jessica Parker, respectivamente, receberam seus prêmios na Golden Eve, cerimônia realizada no dia 08 de janeiro. Esse modelo de cerimônia separada também é usado pela AMPAS e tem como um de seus objetivos agilizar a transmissão televisiva do Globo de Ouro para não tornar a experiência cansativa para o telespectador e, assim, manter o índice de audiência até o final do evento.
Globo de Ouro expõe a ansiedade da indústria na batalha pela Warner Bros
Enquanto os responsáveis pelas campanhas dos filmes batalham por indicações para seus representados, profissionais de todos os departamentos da indústria se preocupam com a “guerra” travada entre a Netflix e a Paramount pela aquisição da Warner Bros., estúdio centenário que pode sofrer mudanças drásticas em seu modus operandi caso seja adquirido pela gigante do streaming, que, de olho em assinantes, já manifestou o desejo de encurtar para 17 dias a janela de exibição, isto é, o intervalo entre o lançamento comercial nos cinemas e a estreia nas plataformas digitais e TV por assinatura, VoD, entre outros – a janela tradicional é de 90 dias, mas foi encurtada no período crítico da pandemia para que a população pudesse ter acesso a meios de entretenimento em meio ao lockdown.
A preocupação é válida sobretudo pelo fato de o cinema estar se recuperando economicamente dos efeitos colaterais tanto da pandemia quanto da greve de atores e roteiristas que assolou Hollywood há dois anos. Além disso, não se pode ignorar a crise criativa observada há décadas na capital do cinema, que precisa se reinventar urgentemente enquanto testemunha o distanciamento do público das salas de exibição, tanto pelo alto custo dos ingressos quanto pela ascensão do streaming. Contudo, é importante lembrar que a indústria sobreviveu à popularização da televisão, do videocassete e dos aparelhos de entretenimento doméstico que o sucederam, como DVD e blu-ray, tendo meios suficientes para se manter ativa se assim desejar e Ted Sarandos, CEO da Netflix, permitir.
A questão é mais ampla e complexa porque não se trata apenas da aquisição de mais um estúdio por plataforma de streaming (a Amazon concluiu a compra da MGM em 2022 por US$ 8,45 bilhões), mas, sim, da manutenção do cinema em sua essência e tradição, ou seja, da sala de exibição, historicamente local de socialização que concedem experiência completa ao espectador e, importantíssimo lembrar, a principal fonte de renda para que as engrenagens da indústria se mantenham em funcionamento pleno. Sem arrecadação de bilheterias, não haverá dinheiro para a produção de longas-metragens em larga escala e, consequentemente, a indústria cinematográfica irá a pique, tendo a bordo milhares de pessoas que perderão seus empregos e meios de sobrevivência.
Na plateia do luxuoso salão do The Beverly Hilton Hotel, Ted Sarandos testemunhou a defesa do modelo tradicional de cinema por vários profissionais, incluindo Stellan Skarsgård. Em seu discurso de agradecimento, o sueco disse que gostaria que o público assistisse a “Valor Sentimental” nos cinemas, lamentando o risco de extinção enfrentado por um dos meios de comunicação mais importantes do planeta. “Espero que você assista no cinema, porque eles são uma espécie extinta agora. No cinema, onde as luzes se apagam e você acaba compartilhando a emoção com outras pessoas. Isso é mágico. Cinema deve ser visto no cinema”, afirmou Skarsgård.
No final da noite, entre vitoriosos e derrotados, ficou nítido que, apesar de Sarandos afirmar não desejar findar com o cinema em sua essência e tradição, a indústria cinematográfica não abraça sua ideia. Hoje, o medo paira sobre a comunidade hollywoodiana e, também, sobre os exibidores. A guerra pelo controle da Warner, incluindo todo o seu catálogo e a gigante do streaming HBO Max, está longe de terminar e segue com uma batalha após a outra, garantindo o lugar no livro de História do cinema mundial como um dos capítulos mais nocivos para a sétima-arte e a todos que dela dependem.
+ assista ao discurso de agradecimento de Wagner Moura no Globo de Ouro 2026:
Sobre Ana Carolina Garcia: Formada em Comunicação Social e pós-graduada em Jornalismo Cultural, Ana Carolina Garcia é autora dos livros “A Fantástica Fábrica de Filmes – Como Hollywood se tornou a capital mundial do cinema” (2011), “Cinema no século XXI – Modelo tradicional na Era do Streaming” (2021) e “100 anos do Império Disney: Da Avenida Kingswell à conquista do universo” (2023). É vice-presidente da Associação de Críticos de Cinema do Rio de Janeiro (ACCRJ) desde 2021.