Exibido no Festival de Berlim como um dos concorrentes ao Urso de Ouro deste ano, “Todos os Mortos” (2020) estreia no circuito comercial brasileiro nesta quinta-feira, dia 10, prometendo ao espectador momentos de reflexão acerca de acontecimentos históricos não tão distantes e que ainda hoje se refletem na situação sócio-política-econômica do país. Com direção […]
PORAna Carolina Garcia8/12/2020|
3 min de leitura
“Todos os Mortos” é dirigido e roteirizado por Marco Dutra e Caetano Gotardo (Foto: Divulgação).
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Exibido no Festival de Berlim como um dos concorrentes ao Urso de Ouro deste ano, “Todos os Mortos” (2020) estreia no circuito comercial brasileiro nesta quinta-feira, dia 10, prometendo ao espectador momentos de reflexão acerca de acontecimentos históricos não tão distantes e que ainda hoje se refletem na situação sócio-política-econômica do país.
“Todos os Mortos” foi um dos destaques do Festival de Berlim deste ano (Foto: Divulgação).
Com direção e roteiro de Marco Dutra e Caetano Gotardo, “Todos os Mortos” começa em setembro de 1899, mostrando o início da decadência aristocrata por meio de uma família disfuncional cujo patriarca prefere se manter na antiga fazenda de café, passando de proprietário a funcionário, a se reunir com a esposa e as filhas em São Paulo. Enquanto isso, a primogênita Maria (Clarissa Kiste), enrustida e amargurada sob o hábito religioso, faz o possível para recuperar a saúde mental da mãe e da irmã, que ficam obcecadas por João (Agyei Augusto), filho de uma ex-escrava da fazenda.
Dividido em capítulos, o longa conta com roteiro coeso e desenvolvido com cuidado, mas o ritmo lento da narrativa incomoda em alguns momentos, algo impulsionado pelo tom quase teatral no qual os diálogos são proferidos. A formalidade é tanta que soa artificial e concede aos personagens tons quase robóticos, diminuindo tanto o impacto da história sobre o espectador quanto a força das personagens, principalmente femininas e responsáveis por suas respectivas famílias, uma vez que não há nenhuma figura masculina presente.
Abordando o período pós-abolição da escravatura, “Todos os Mortos” apresenta o preconceito racial enraizado na sociedade brasileira num cenário difícil no qual os negros, apesar da anunciada liberdade, por falta de oportunidades e opções, continuavam presos às famílias que os escravizaram e comercializaram. Os poucos que tiveram coragem, e condições, de enfrentar a luta por condições mínimas de dignidade tiveram de lidar com a hipocrisia e arrogância principalmente nas capitais, onde sua fé e tradições eram constantemente desrespeitadas.
Classificado como drama, “Todos os Mortos” insere elementos do cinema de terror gradativamente de forma a ambientar o espectador, seguindo fórmula que remete um pouco ao aclamado “Os Outros” (The Others – 2001), de Alejandro Amenábar, no que tange à estética e à opção de priorizar o ambiente do casarão como cenário principal do núcleo aristocrata. No fim das contas, este é um filme que começa como drama histórico sobre mentes perturbadas, tornando-se cada vez mais sombrio ao brincar com o suspense e o sobrenatural.
Assista ao trailer oficial:
Exibido no Festival de Berlim como um dos concorrentes ao Urso de Ouro deste ano, “Todos os Mortos” (2020) estreia no circuito comercial brasileiro nesta quinta-feira, dia 10, prometendo ao espectador momentos de reflexão acerca de acontecimentos históricos não tão distantes e que ainda hoje se refletem na situação sócio-política-econômica do país.
“Todos os Mortos” foi um dos destaques do Festival de Berlim deste ano (Foto: Divulgação).
Com direção e roteiro de Marco Dutra e Caetano Gotardo, “Todos os Mortos” começa em setembro de 1899, mostrando o início da decadência aristocrata por meio de uma família disfuncional cujo patriarca prefere se manter na antiga fazenda de café, passando de proprietário a funcionário, a se reunir com a esposa e as filhas em São Paulo. Enquanto isso, a primogênita Maria (Clarissa Kiste), enrustida e amargurada sob o hábito religioso, faz o possível para recuperar a saúde mental da mãe e da irmã, que ficam obcecadas por João (Agyei Augusto), filho de uma ex-escrava da fazenda.
Dividido em capítulos, o longa conta com roteiro coeso e desenvolvido com cuidado, mas o ritmo lento da narrativa incomoda em alguns momentos, algo impulsionado pelo tom quase teatral no qual os diálogos são proferidos. A formalidade é tanta que soa artificial e concede aos personagens tons quase robóticos, diminuindo tanto o impacto da história sobre o espectador quanto a força das personagens, principalmente femininas e responsáveis por suas respectivas famílias, uma vez que não há nenhuma figura masculina presente.
Abordando o período pós-abolição da escravatura, “Todos os Mortos” apresenta o preconceito racial enraizado na sociedade brasileira num cenário difícil no qual os negros, apesar da anunciada liberdade, por falta de oportunidades e opções, continuavam presos às famílias que os escravizaram e comercializaram. Os poucos que tiveram coragem, e condições, de enfrentar a luta por condições mínimas de dignidade tiveram de lidar com a hipocrisia e arrogância principalmente nas capitais, onde sua fé e tradições eram constantemente desrespeitadas.
Classificado como drama, “Todos os Mortos” insere elementos do cinema de terror gradativamente de forma a ambientar o espectador, seguindo fórmula que remete um pouco ao aclamado “Os Outros” (The Others – 2001), de Alejandro Amenábar, no que tange à estética e à opção de priorizar o ambiente do casarão como cenário principal do núcleo aristocrata. No fim das contas, este é um filme que começa como drama histórico sobre mentes perturbadas, tornando-se cada vez mais sombrio ao brincar com o suspense e o sobrenatural.