Pois não é que dia desses, passeando aqui pelo sítio rezendiano, fiquei com uma sede absurda, vontade de pedir com urgência uns dois ou três chopes, para acalmar os nervos e pensar na vida.
POR Redação SRzd 31/5/2006| 3 min de leitura
Pois não é que dia desses, passeando aqui pelo sítio rezendiano, fiquei com uma sede absurda, vontade de pedir com urgência uns dois ou três chopes, para acalmar os nervos e pensar na vida.
POR Redação SRzd 31/5/2006| 3 min de leitura
Pois não é que dia desses, passeando aqui pelo sítio rezendiano, fiquei com uma sede absurda, vontade de pedir com urgência uns dois ou três chopes, para acalmar os nervos e pensar na vida. Efeito direto do lapidar comentário do colega C.V. (não me entendam mal, não faço apologia de nada, são de fato as iniciais de um dos dínamo desta empreitada virtual, o promissor Viegas). E lapidar aqui é menos no sentido de um texto definitivo e mais no que remeta a lápide mesmo, túmulo, morte para ser mais explícito. No caso, a morte de um bar na praia do Leblon. Aliás, do último bar da praia do Leblon. Descanse em paz, Caneco 70.
Pensamento é igual a degrau em escada, um leva a outro, para cima e para baixo. Partindo do finado, logo alcancei o patamar de um tema-xodó : o botequim. Antes de mais nada, para os crédulos como eu às vezes, é importante parafrasear a letra de uma música setentista e , sempre, jogar as mãos para o céu e agradecer pelo acaso de sermos, ainda contemporâneos de tão nobre instituição. Nobre e, acima de tudo, democrática, por mais que a definição pareça uma óbvia contradição em termos. Pois você, que chegou até aqui nesses devaneios, há de concordar comigo que o boteco, este pulsante coração da boemia carioca é, sem sombra de dúvida, um dos mais ricos espaços urbanos para o saudável exercício da democracia. Uma heróica célula de resistência ao confinamento criado e alimentado pela imposição de uma cultura individualista ao extremo, frívola a não mais poder e tão psicopatamente exaltadora do consumismo mais voraz que só pode estar fadada ao mesmo fim do supra-homenageado Caneco, a morte.
Pois digo sem medo de errar: feliz da cidade que, em plena algazarra letal de uma metrópole sudesenvolvida do século XXI, ainda consegue manter este espaço sagrado do bom convívio e da civilidade, aberto à rua e aos clamores que dela emanam, protegido do sol e da chuva por paredes sólidas e imprescindíveis altares, com seus santos, patuás e simpatias alimentando a crença, a fé. Numa proteção divina, na fortuna além do horizonte, no amor em todos seus matizes. Feliz da cidade, insisto, que conserva seus botecos, e neles balcões de mármore, onde se apóiam lado a lado, o advogado e o pedreiro, o alcóolatra e o abstêmio, o empresário e o taxista, o recém-casado e a patroa, o enganado e o traidor, o cético e o esperançoso. E onde o homem só, depois de descer com vontade uma branquinha, uma gelada, um rabo de galo, um limão da casa ou um improvável vinho suave, pode respirar fundo, fechar os olhos, virar para o lado e, em toda tranqüilidade, dizer o que pensa.
Euclydes P. é jornalista
Pois não é que dia desses, passeando aqui pelo sítio rezendiano, fiquei com uma sede absurda, vontade de pedir com urgência uns dois ou três chopes, para acalmar os nervos e pensar na vida. Efeito direto do lapidar comentário do colega C.V. (não me entendam mal, não faço apologia de nada, são de fato as iniciais de um dos dínamo desta empreitada virtual, o promissor Viegas). E lapidar aqui é menos no sentido de um texto definitivo e mais no que remeta a lápide mesmo, túmulo, morte para ser mais explícito. No caso, a morte de um bar na praia do Leblon. Aliás, do último bar da praia do Leblon. Descanse em paz, Caneco 70.
Pensamento é igual a degrau em escada, um leva a outro, para cima e para baixo. Partindo do finado, logo alcancei o patamar de um tema-xodó : o botequim. Antes de mais nada, para os crédulos como eu às vezes, é importante parafrasear a letra de uma música setentista e , sempre, jogar as mãos para o céu e agradecer pelo acaso de sermos, ainda contemporâneos de tão nobre instituição. Nobre e, acima de tudo, democrática, por mais que a definição pareça uma óbvia contradição em termos. Pois você, que chegou até aqui nesses devaneios, há de concordar comigo que o boteco, este pulsante coração da boemia carioca é, sem sombra de dúvida, um dos mais ricos espaços urbanos para o saudável exercício da democracia. Uma heróica célula de resistência ao confinamento criado e alimentado pela imposição de uma cultura individualista ao extremo, frívola a não mais poder e tão psicopatamente exaltadora do consumismo mais voraz que só pode estar fadada ao mesmo fim do supra-homenageado Caneco, a morte.
Pois digo sem medo de errar: feliz da cidade que, em plena algazarra letal de uma metrópole sudesenvolvida do século XXI, ainda consegue manter este espaço sagrado do bom convívio e da civilidade, aberto à rua e aos clamores que dela emanam, protegido do sol e da chuva por paredes sólidas e imprescindíveis altares, com seus santos, patuás e simpatias alimentando a crença, a fé. Numa proteção divina, na fortuna além do horizonte, no amor em todos seus matizes. Feliz da cidade, insisto, que conserva seus botecos, e neles balcões de mármore, onde se apóiam lado a lado, o advogado e o pedreiro, o alcóolatra e o abstêmio, o empresário e o taxista, o recém-casado e a patroa, o enganado e o traidor, o cético e o esperançoso. E onde o homem só, depois de descer com vontade uma branquinha, uma gelada, um rabo de galo, um limão da casa ou um improvável vinho suave, pode respirar fundo, fechar os olhos, virar para o lado e, em toda tranqüilidade, dizer o que pensa.
Euclydes P. é jornalista
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