Por Ana Carolina Garcia, crítica de cinema do SRzd Em 1933, a então chamada Walt Disney Productions lançou uma das mais importantes “Silly Simphonies”, série de curtas produzida entre 1929 e 1939 que representou grande avanço nas técnicas do cinema de animação, “Os três porquinhos” (Three Little Pigs – 1933, EUA), dirigida por Burt Gillett e […]
PORAna Carolina Garcia25/5/2026|
4 min de leitura
“A revolução dos bichos” é a adaptação da obra homônima de George Orwell. Foto: Divulgação
Por Ana Carolina Garcia, crítica de cinema do SRzd
Em 1933, a então chamada Walt Disney Productions lançou uma das mais importantes “Silly Simphonies”, série de curtas produzida entre 1929 e 1939 que representou grande avanço nas técnicas do cinema de animação, “Os três porquinhos” (Three Little Pigs – 1933, EUA), dirigida por Burt Gillett e baseada na obra de Joseph Jacobs. A história mostra três irmãos porquinhos ameaçados pelo Lobo-mau, que encontra facilidade na preguiça de dois deles, Cícero e Heitor, lutando somente contra a inteligência e determinação de prático, que construiu uma casa de alvenaria enquanto os irmãos curtiam a vida sem preocupação. Acreditando na força do trabalho árduo, Prático se tornou exemplo de determinação para a plateia em meio aos efeitos da Grande Depressão, transformando a “Silly Simphony” em espécie de antídoto para a crise econômica.
“A revolução dos bichos” é dirigido por Andy Serkis. Foto: Divulgação
Se no curta da Disney os três porquinhos são vítimas do lobo, na nova animação dirigida por Andy Serkis para a Aniventure, Cinesite, Imaginarium Productions e The Imaginarium, “A revolução dos bichos” (Animal Farm – 2026, Reino Unido / Canadá / EUA) os porquinhos são tão vítimas quanto vilões. Afinal, seguem seu líder, Napoleão (voz de Seth Rogen), numa jornada gananciosa e, por que não dizer, segregacionista, na qual animais de outras espécies da fazenda são obrigados a realizar trabalho pesado enquanto os porcos curtem a vida com fartura e diversão, aliando-se à Frieda Pilkington (voz de Glenn Close), que deseja transformar a fazenda em hidrelétrica. Neste cenário, poucos animais enxergam a realidade, principalmente Sansão (voz de Woody Harrelson), que em muito lembra Prático e, mais do que isso, é uma alegoria à classe operária dos anos da Revolução Russa (1917 a 1923).
Adaptação do romance homônimo de George Orwell, publicado em 1945 e proibido em diversos países à época de seu lançamento, “A revolução dos bichos” chega aos cinemas brasileiros na próxima quinta-feira (28) se distanciando da linguagem infantil, apesar da inserção de humor simplório que nem sempre funciona, para levar às telas a mensagem sobre igualdade, muitas vezes deturpada pela ganância e sede de poder daqueles que burlam regras e leis de acordo com seus desejos e interesses. Isso é apresentado de forma objetiva por meio do sonho de liberdade nutrido pelos animais, acreditando que seu algoz, o humano dono da fazenda, era seu maior pesadelo. Com a ascensão de Napoleão ao poder e a consequente implementação de regime ditatorial, o leitãozinho Sortudo (voz de Gaten Matarazzo) surge como o sonhador inocente que embarca no discurso do líder mesmo discordando de diversas ações, posicionando-se somente quando testemunha seus amigos sofrerem com a fome e a exaustão, subvertendo o princípio da revolução instaurada na fazenda, resumido na frase “todos os animais são iguais”. Mas, para Napoleão e outros porcos corrompidos, o lema se transforma em “todos os animais são iguais, mas alguns animais são mais iguais que outros”.
Com roteiro de Nicholas Stoller, de “Vizinhos 2” (Neighbors 2: Sorority Rising – 2016, EUA), “A revolução dos bichos” não consegue equilibrar a complexidade da história original com a leveza necessária para uma animação que também contempla o público infantil. Orçada em cerca de US$ 35 milhões, a animação de Serkis se perde por não definir seu público-alvo, enfrentando dificuldades para prender a atenção dos espectadores independentemente da idade. Ou seja, não consegue dialogar com propriedade com crianças nem com adultos. Mesmo assim, é válido pela mensagem de igualdade transmitida desde os seus primeiros minutos.
+ assista ao trailer oficial legendado:
Sobre Ana Carolina Garcia: Formada em Comunicação Social e pós-graduada em Jornalismo Cultural, Ana Carolina Garcia é autora dos livros “A Fantástica Fábrica de Filmes – Como Hollywood se tornou a capital mundial do cinema” (2011), “Cinema no século XXI – Modelo tradicional na Era do Streaming” (2021) e “100 anos do Império Disney: Da Avenida Kingswell à conquista do universo” (2023). É vice-presidente da Associação de Críticos de Cinema do Rio de Janeiro (ACCRJ) desde 2021.
Por Ana Carolina Garcia, crítica de cinema do SRzd
Em 1933, a então chamada Walt Disney Productions lançou uma das mais importantes “Silly Simphonies”, série de curtas produzida entre 1929 e 1939 que representou grande avanço nas técnicas do cinema de animação, “Os três porquinhos” (Three Little Pigs – 1933, EUA), dirigida por Burt Gillett e baseada na obra de Joseph Jacobs. A história mostra três irmãos porquinhos ameaçados pelo Lobo-mau, que encontra facilidade na preguiça de dois deles, Cícero e Heitor, lutando somente contra a inteligência e determinação de prático, que construiu uma casa de alvenaria enquanto os irmãos curtiam a vida sem preocupação. Acreditando na força do trabalho árduo, Prático se tornou exemplo de determinação para a plateia em meio aos efeitos da Grande Depressão, transformando a “Silly Simphony” em espécie de antídoto para a crise econômica.
“A revolução dos bichos” é dirigido por Andy Serkis. Foto: Divulgação
Se no curta da Disney os três porquinhos são vítimas do lobo, na nova animação dirigida por Andy Serkis para a Aniventure, Cinesite, Imaginarium Productions e The Imaginarium, “A revolução dos bichos” (Animal Farm – 2026, Reino Unido / Canadá / EUA) os porquinhos são tão vítimas quanto vilões. Afinal, seguem seu líder, Napoleão (voz de Seth Rogen), numa jornada gananciosa e, por que não dizer, segregacionista, na qual animais de outras espécies da fazenda são obrigados a realizar trabalho pesado enquanto os porcos curtem a vida com fartura e diversão, aliando-se à Frieda Pilkington (voz de Glenn Close), que deseja transformar a fazenda em hidrelétrica. Neste cenário, poucos animais enxergam a realidade, principalmente Sansão (voz de Woody Harrelson), que em muito lembra Prático e, mais do que isso, é uma alegoria à classe operária dos anos da Revolução Russa (1917 a 1923).
Adaptação do romance homônimo de George Orwell, publicado em 1945 e proibido em diversos países à época de seu lançamento, “A revolução dos bichos” chega aos cinemas brasileiros na próxima quinta-feira (28) se distanciando da linguagem infantil, apesar da inserção de humor simplório que nem sempre funciona, para levar às telas a mensagem sobre igualdade, muitas vezes deturpada pela ganância e sede de poder daqueles que burlam regras e leis de acordo com seus desejos e interesses. Isso é apresentado de forma objetiva por meio do sonho de liberdade nutrido pelos animais, acreditando que seu algoz, o humano dono da fazenda, era seu maior pesadelo. Com a ascensão de Napoleão ao poder e a consequente implementação de regime ditatorial, o leitãozinho Sortudo (voz de Gaten Matarazzo) surge como o sonhador inocente que embarca no discurso do líder mesmo discordando de diversas ações, posicionando-se somente quando testemunha seus amigos sofrerem com a fome e a exaustão, subvertendo o princípio da revolução instaurada na fazenda, resumido na frase “todos os animais são iguais”. Mas, para Napoleão e outros porcos corrompidos, o lema se transforma em “todos os animais são iguais, mas alguns animais são mais iguais que outros”.
Com roteiro de Nicholas Stoller, de “Vizinhos 2” (Neighbors 2: Sorority Rising – 2016, EUA), “A revolução dos bichos” não consegue equilibrar a complexidade da história original com a leveza necessária para uma animação que também contempla o público infantil. Orçada em cerca de US$ 35 milhões, a animação de Serkis se perde por não definir seu público-alvo, enfrentando dificuldades para prender a atenção dos espectadores independentemente da idade. Ou seja, não consegue dialogar com propriedade com crianças nem com adultos. Mesmo assim, é válido pela mensagem de igualdade transmitida desde os seus primeiros minutos.
+ assista ao trailer oficial legendado:
Sobre Ana Carolina Garcia: Formada em Comunicação Social e pós-graduada em Jornalismo Cultural, Ana Carolina Garcia é autora dos livros “A Fantástica Fábrica de Filmes – Como Hollywood se tornou a capital mundial do cinema” (2011), “Cinema no século XXI – Modelo tradicional na Era do Streaming” (2021) e “100 anos do Império Disney: Da Avenida Kingswell à conquista do universo” (2023). É vice-presidente da Associação de Críticos de Cinema do Rio de Janeiro (ACCRJ) desde 2021.