‘Story.telling’ se firma como franquia de curtas que brinca com o slasher
Por Ana Carolina Garcia, crítica de cinema do SRzd Vivendo uma de suas melhores fases, o cinema nacional tem conquistado novos espectadores a cada lançamento, sobretudo os considerados de grande porte com chances reais de colecionar prêmios dentro e fora do Brasil. Isso se deve em parte ao desbravamento de gêneros cinematográficos pouco explorados no país, […]
PORAna Carolina Garcia19/5/2026|
6 min de leitura
“Story.telling: Capítulo 2”: a protagonista Anne Faria e João Fernandes. Foto: Divulgação
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Por Ana Carolina Garcia, crítica de cinema do SRzd
Vivendo uma de suas melhores fases, o cinema nacional tem conquistado novos espectadores a cada lançamento, sobretudo os considerados de grande porte com chances reais de colecionar prêmios dentro e fora do Brasil. Isso se deve em parte ao desbravamento de gêneros cinematográficos pouco explorados no país, dentre eles, o horror e o suspense, representados por longas como “O animal cordial” (2017) e “Barba ensopada de sangue” (2024, respectivamente dirigidos por Gabriela Amaral e Aly Muritiba. Os dois filmes ajudaram a pavimentar o caminho de novas produções rumo às salas de exibição. Mesmo assim, o trajeto é repleto de obstáculos, principalmente no que tange ao cinema independente.
“Story.telling: Capítulo 2” é dirigido por Fábio Brandão. Foto: Divulgação
As produções independentes têm alcance limitado de público, salvo algumas exceções que conseguem driblar os inúmeros obstáculos e chegar aos grandes festivais, ganhando visibilidade – nos Estados Unidos, o Festival de Sundance, criado por Robert Redford em 1978, é um grande referencial, permitindo que alguns de seus selecionados briguem em pé de igualdade com produções de grandes estúdios. No Brasil, as dificuldades são maiores, mas há quem consiga superá-las para conquistar o tão sonhado espaço nas concorridas salas de exibição. É o caso da agora franquia “Story.telling”, iniciada em 2021, quando o cinema sentia os efeitos colaterais da crise imposta pela Covid-19, que fechou centros de produção e salas de exibição ao redor do globo a partir de março de 2020.
Idealizada e dirigida por Fábio Brandão, carioca que iniciou a carreira no cinema com o curta “Nós” (2016) depois de vasta experiência na televisão, tendo participado, entre tantas produções televisivas, de “Planeta Extremo” (2011 a 2012), série indicada ao Emmy Internacional em 2012, a franquia “Story.telling” se prepara para o lançamento de seu segundo curta, “Story.telling: Capítulo 2” (2026), nesta quinta-feira (21) no Rio de Janeiro.
“A gente foi atrapalhado pela pandemia no primeiro [filme] e sentiu isso na pele. Mas agora a gente veio com muita força, mostrando que evoluiu e vai seguir evoluindo. Então, a brincadeira agora é já fez uma vez e vai fazer melhor. É o que a gente está buscando nesse segundo filme, não só pela estética, que já é a marca do projeto, com planos sequências, intervenções de humor, novos personagens na quarta parede, na relevância do humor, onde os caras estão contando a história”, afirma Fábio Brandão, destacando a criação de fragmentos e subjetividade num “formato que acontece na sua frente e você não tem tempo de ser abduzido por uma suposição”.
Com roteiro de Brandão, Tay Ferreira, Silvio Gonzalez, Rafael Schubert e Ed Gama, “Story.telling: Capítulo 2” mantém a essência de seu antecessor, bebendo diretamente da fonte de Wes Craven, Quentin Tarantino e Stephen King, equilibrando elementos do slasher e do gore com humor para expandir o universo de “Story.telling” e provocar a plateia por meio do trabalho de dois roteiristas que constroem uma história em tempo real acompanhando sete jovens que participam de um jogo numa casa isolada onde a única saída é cumprir desafios calcados em objetivos pessoais. O problema é que o jogo é mais complexo do que parece.
“Quando você escreve ou quando você filma um filme que conta a história de um filme sendo filmado, você não tem muito tempo, ainda mais num curta-metragem. Você não tem muito tempo de desenvolver grandes coisas, então a gente consegue no ‘Story.telling: Capítulo 2’ entregar uma narrativa não óbvia, sólida, porém totalmente fragmentada em personagens que são maiores que seus arquétipos. Todos os personagens são muito maiores que o tempo de tela que eles têm. E isso faz uma diferença danada porque deixa essas camadas que a história vai largando como pistas para você também ir desvendando o que está acontecendo. É o tempo inteiro você tentando desvendar o que está acontecendo”.
Silvio Gonzalez, Isaú Júnior, Cezar Maracujá e Rafael Schubert em cena de “Story.telling: Capítulo 2”. Foto: Divulgação
Contando uma história sem vilões nem mocinhos, “Story.telling 2” é protagonizado por Anne Faria, atriz com experiência teatral que estreia no cinema com a responsabilidade de assumir a personagem principal. “A protagonista da história central é uma bailarina preta que erra e acerta – e sofre por isso. Tem uma jornada muito concreta”, diz Brandão, que conta em seu elenco com nomes como João Fernandes, Isaú Junior, Cezar Maracujá, Silvio Gonzalez, Rafael Schubert e Roberta Piragibe.
Orçado em cerca de R$ 20 mil de recursos próprios de sua equipe, que também contou com participações colaborativas, o curta-metragem rodado no Rio de Janeiro tem como objetivo mostrar a evolução da trama de “Story.telling”, vencedor do prêmio do júri do Rock Horror Film Festival em 2021.
“O objetivo da retomada do Story.telling depois de seis anos é seguir evoluindo com uma ideia que a gente entendeu que continua nova e intrigante, sendo difícil de ver e fazer. E a gente, no nosso espaço do cinema independente, ainda que sem recursos, consegue juntar as pessoas certas para fazer isso e dar vida”, afirma Brandão, destacando o sonho de dar continuidade à história original e que o segundo filme só foi possível devido ao interesse das pessoas pelo projeto e pelo formato.
A transformação do “Story.telling” em franquia foge do lugar comum de curtas-metragens, que, no Brasil, infelizmente, não costumam seguir por esse caminho. É uma vitória celebrada por seus idealizadores e toda a equipe, sobretudo por ser fruto de um trabalho árduo que conseguiu driblar os obstáculos impostos pelo cinema independente, mostrando ao público que cineastas e roteiristas brasileiros têm muito a oferecer na tela grande. E a grande brincadeira, aqui, é que, segundo Fábio Brandão, “O ‘Story.telling 2’ é um filme pronto que, claramente, não está pronto. Ele entrega para mais, deixa para mais. E é aí que vem o segredo do capítulo 3”. Ou seja, segue a fórmula hollywoodiana de franquias que conquistam a atenção da plateia com tramas intrigantes e divertidas com capacidade de chegar ao streaming e desbravar novos formatos.
Sobre Ana Carolina Garcia: Formada em Comunicação Social e pós-graduada em Jornalismo Cultural, Ana Carolina Garcia é autora dos livros “A Fantástica Fábrica de Filmes – Como Hollywood se tornou a capital mundial do cinema” (2011), “Cinema no século XXI – Modelo tradicional na Era do Streaming” (2021) e “100 anos do Império Disney: Da Avenida Kingswell à conquista do universo” (2023). É vice-presidente da Associação de Críticos de Cinema do Rio de Janeiro (ACCRJ) desde 2021.
Por Ana Carolina Garcia, crítica de cinema do SRzd
Vivendo uma de suas melhores fases, o cinema nacional tem conquistado novos espectadores a cada lançamento, sobretudo os considerados de grande porte com chances reais de colecionar prêmios dentro e fora do Brasil. Isso se deve em parte ao desbravamento de gêneros cinematográficos pouco explorados no país, dentre eles, o horror e o suspense, representados por longas como “O animal cordial” (2017) e “Barba ensopada de sangue” (2024, respectivamente dirigidos por Gabriela Amaral e Aly Muritiba. Os dois filmes ajudaram a pavimentar o caminho de novas produções rumo às salas de exibição. Mesmo assim, o trajeto é repleto de obstáculos, principalmente no que tange ao cinema independente.
“Story.telling: Capítulo 2” é dirigido por Fábio Brandão. Foto: Divulgação
As produções independentes têm alcance limitado de público, salvo algumas exceções que conseguem driblar os inúmeros obstáculos e chegar aos grandes festivais, ganhando visibilidade – nos Estados Unidos, o Festival de Sundance, criado por Robert Redford em 1978, é um grande referencial, permitindo que alguns de seus selecionados briguem em pé de igualdade com produções de grandes estúdios. No Brasil, as dificuldades são maiores, mas há quem consiga superá-las para conquistar o tão sonhado espaço nas concorridas salas de exibição. É o caso da agora franquia “Story.telling”, iniciada em 2021, quando o cinema sentia os efeitos colaterais da crise imposta pela Covid-19, que fechou centros de produção e salas de exibição ao redor do globo a partir de março de 2020.
Idealizada e dirigida por Fábio Brandão, carioca que iniciou a carreira no cinema com o curta “Nós” (2016) depois de vasta experiência na televisão, tendo participado, entre tantas produções televisivas, de “Planeta Extremo” (2011 a 2012), série indicada ao Emmy Internacional em 2012, a franquia “Story.telling” se prepara para o lançamento de seu segundo curta, “Story.telling: Capítulo 2” (2026), nesta quinta-feira (21) no Rio de Janeiro.
“A gente foi atrapalhado pela pandemia no primeiro [filme] e sentiu isso na pele. Mas agora a gente veio com muita força, mostrando que evoluiu e vai seguir evoluindo. Então, a brincadeira agora é já fez uma vez e vai fazer melhor. É o que a gente está buscando nesse segundo filme, não só pela estética, que já é a marca do projeto, com planos sequências, intervenções de humor, novos personagens na quarta parede, na relevância do humor, onde os caras estão contando a história”, afirma Fábio Brandão, destacando a criação de fragmentos e subjetividade num “formato que acontece na sua frente e você não tem tempo de ser abduzido por uma suposição”.
Com roteiro de Brandão, Tay Ferreira, Silvio Gonzalez, Rafael Schubert e Ed Gama, “Story.telling: Capítulo 2” mantém a essência de seu antecessor, bebendo diretamente da fonte de Wes Craven, Quentin Tarantino e Stephen King, equilibrando elementos do slasher e do gore com humor para expandir o universo de “Story.telling” e provocar a plateia por meio do trabalho de dois roteiristas que constroem uma história em tempo real acompanhando sete jovens que participam de um jogo numa casa isolada onde a única saída é cumprir desafios calcados em objetivos pessoais. O problema é que o jogo é mais complexo do que parece.
“Quando você escreve ou quando você filma um filme que conta a história de um filme sendo filmado, você não tem muito tempo, ainda mais num curta-metragem. Você não tem muito tempo de desenvolver grandes coisas, então a gente consegue no ‘Story.telling: Capítulo 2’ entregar uma narrativa não óbvia, sólida, porém totalmente fragmentada em personagens que são maiores que seus arquétipos. Todos os personagens são muito maiores que o tempo de tela que eles têm. E isso faz uma diferença danada porque deixa essas camadas que a história vai largando como pistas para você também ir desvendando o que está acontecendo. É o tempo inteiro você tentando desvendar o que está acontecendo”.
Silvio Gonzalez, Isaú Júnior, Cezar Maracujá e Rafael Schubert em cena de “Story.telling: Capítulo 2”. Foto: Divulgação
Contando uma história sem vilões nem mocinhos, “Story.telling 2” é protagonizado por Anne Faria, atriz com experiência teatral que estreia no cinema com a responsabilidade de assumir a personagem principal. “A protagonista da história central é uma bailarina preta que erra e acerta – e sofre por isso. Tem uma jornada muito concreta”, diz Brandão, que conta em seu elenco com nomes como João Fernandes, Isaú Junior, Cezar Maracujá, Silvio Gonzalez, Rafael Schubert e Roberta Piragibe.
Orçado em cerca de R$ 20 mil de recursos próprios de sua equipe, que também contou com participações colaborativas, o curta-metragem rodado no Rio de Janeiro tem como objetivo mostrar a evolução da trama de “Story.telling”, vencedor do prêmio do júri do Rock Horror Film Festival em 2021.
“O objetivo da retomada do Story.telling depois de seis anos é seguir evoluindo com uma ideia que a gente entendeu que continua nova e intrigante, sendo difícil de ver e fazer. E a gente, no nosso espaço do cinema independente, ainda que sem recursos, consegue juntar as pessoas certas para fazer isso e dar vida”, afirma Brandão, destacando o sonho de dar continuidade à história original e que o segundo filme só foi possível devido ao interesse das pessoas pelo projeto e pelo formato.
A transformação do “Story.telling” em franquia foge do lugar comum de curtas-metragens, que, no Brasil, infelizmente, não costumam seguir por esse caminho. É uma vitória celebrada por seus idealizadores e toda a equipe, sobretudo por ser fruto de um trabalho árduo que conseguiu driblar os obstáculos impostos pelo cinema independente, mostrando ao público que cineastas e roteiristas brasileiros têm muito a oferecer na tela grande. E a grande brincadeira, aqui, é que, segundo Fábio Brandão, “O ‘Story.telling 2’ é um filme pronto que, claramente, não está pronto. Ele entrega para mais, deixa para mais. E é aí que vem o segredo do capítulo 3”. Ou seja, segue a fórmula hollywoodiana de franquias que conquistam a atenção da plateia com tramas intrigantes e divertidas com capacidade de chegar ao streaming e desbravar novos formatos.
Sobre Ana Carolina Garcia: Formada em Comunicação Social e pós-graduada em Jornalismo Cultural, Ana Carolina Garcia é autora dos livros “A Fantástica Fábrica de Filmes – Como Hollywood se tornou a capital mundial do cinema” (2011), “Cinema no século XXI – Modelo tradicional na Era do Streaming” (2021) e “100 anos do Império Disney: Da Avenida Kingswell à conquista do universo” (2023). É vice-presidente da Associação de Críticos de Cinema do Rio de Janeiro (ACCRJ) desde 2021.