Por Carlos Frederico Pereira da Silva Gama, colaborador do SRzd 44 anos após a primeira transmissão da Music Television – a MTV – o fim da canção se aproxima. O conglomerado controlador da MTV (Paramount) vai desativar em escala global a maioria dos canais musicais criados pela Viacom até 31 de Dezembro de 2025. Como […]
PORCarlos Frederico Pereira da Silva Gama31/12/2025|
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MTV. Arte
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Por Carlos Frederico Pereira da Silva Gama, colaborador do SRzd
44 anos após a primeira transmissão da Music Television – a MTV – o fim da canção se aproxima. O conglomerado controlador da MTV (Paramount) vai desativar em escala global a maioria dos canais musicais criados pela Viacom até 31 de Dezembro de 2025.
Como num documentário da Netflix, a agonia da MTV foi longa. Na virada do novo século, o canal que revolucionou a linguagem musical da década de 1980 havia migrado para os reality shows. A digitalização da música, a popularização dos aplicativos peer-to-peer (P2P) e a viralização do streaming não foram os grandes responsáveis pelo fim da festa. Antes disso, a MTV obrigara a indústria musical a inverter os termos da equação do mercado: o videoclipe passa a vender o artista e, por tabela, a música. A reboque do audiovisual a New Wave se tornou o mais reconhecível artefato pop da “década perdida”.
O Brasil passou batido pela nova onda. Apesar da popularização do BRock ou “Rock Nacional” na década de 1980, o sinal da MTV chegou ao país tropical apenas em 1990, em meio a dois outros divisores de águas. Nas vésperas da queda do Muro de Berlim, a MTV trocou produções multimilionárias pelo formato intimista e minimalista do Acústico (“Unplugged”), mudando uma vez mais a hierarquia musical. Saíram de cena os produtores de cinema e propaganda, a música eletrônica e os efeitos especiais. Voltaram o banquinho, os violões e o despojamento. A virada orgânica da emissora rumo ao Rock coincidiu com a ascensão alternativa através do Atlântico. A neopsicodelia de Manchester, o Grunge de Seattle, o Funk Metal e o Punk-Pop californianos e o Britpop londrino invadiram as ondas da TV, definiram os anos 1990.
No fim do século 20, a MTV se transformou em uma Hollywood alternativa, com artistas underground emplacando apresentações acústicas coroadas de vendagens milionárias. Banda símbolo da década de 1990, o Nirvana lançou o videoclipe mais revolucionário da década (“Smells Like Teen Spirit”, de 1991) e também um dos
mais aclamados acústicos da MTV (“Unplugged in New York”, de 1994). Pela primeira vez na história, um EP acústico (“Jar of Flies”, da banda grunge Alice in Chains) alcançou o número 1 da Billboard 200 no seu lançamento, em 1994. O impacto da MTV na indústria musical era tamanho que outra banda de Seattle, o Pearl Jam, se tornou uma lenda ao recusar gravar videoclipes para seu segundo disco “Vs”, em nome da integridade musical – o disco quebrou recordes de vendas em 1993, superando 1 milhão de copias em sua primeira semana.
Surfando a estabilização econômica do Plano Real, os acústicos da MTV brasileira transformaram grupos esquecidos dos anos 1980 em mega-hitmakers (Capital Inicial) e alavancaram as vendas de grupos alternativos aos patamares de Roberto Carlos (Titãs). O formato acústico seria adotado por outros estilos, como o Pagode, o Sertanejo e o Axé.
O sucesso das inovações trazidas pela MTV a colocaram num beco sem saída. Após reinventar a música para a televisão duas vezes nas décadas de 1980 e 1990, no século 21 a MTV reinventou o próprio formato dos programas televisivos, ao substituir artistas profissionais pelo cotidiano de anônimos ou aspirantes a celebridades. A popularização dos reality shows e a canibalização do cast da MTV brasileira pelas emissoras abertas selou o fim da era de inovação trazida pela Editora Abril muito antes de 2025.
O fim tardio da MTV nos lembra que, ao menos no Brasil, o impacto da televisão no mercado musical foi limitado. A longa tradição do rádio, o uso de músicas em novelas televisivas e a relevância cultural da prática de música acústica tornaram o novo nicho aberto pela MTV facilmente ocupável no século 21 – seja pelas setlists do streaming, pelos DVDs dos campeões de vendas ou pelos cantores anônimos das churrascarias.
Sintomaticamente, grandes nomes da música brasileira homenageados ou falecidos em 2025 construíram suas carreiras mantendo distância da MTV. Homenageado por Nilo Romero no documentário “Cazuza – Boas Novas”, o Exagerado faleceu meses após o lançamento da MTV Brasil (Julho de 1990), já famoso como vocalista do Barão Vermelho encabeçando o festival Rock in Rio (1985) e dono de memorável e curta carreira-solo como poeta do rock brasileiro. Mitologizado pelo Globoplay na serie musical “Eu Sou”, o Rei do Rock brasileiro Raul Seixas nos deixou em 1989, antes das ondas da MTV. O Legião Urbana de Renato Russo – homenageado pelo Globoplay no documentário “Re.Nato” – emplacou um videoclipe sucesso na MTV brasileira (“Perfeição”). O legendário acústico MTV da banda, porém, se tornaria campeão de vendas apenas postumamente, em 2000. Já o mais notável artista multimidia do país – Ney Matogrosso, antologizado no cinema em “Homem com H” – atravessou sólida carreira sem emplacar nenhum hit na MTV.
Se lendas reconhecidas em vida passaram ao largo da Editora Abril em tempos áureos, os artistas cults e “malditos” que o Brasil perdeu em 2025 foram ostracizados, seus traços na televisão musical visíveis apenas via outras vozes. A mais famosa canção da expoente da boemia blues carioca Ângela Ro-Ro fez sucesso na MTV regravada pelo Barão Vermelho (“Amor, Meu Grande Amor”, 1995). Expoente do Clube da Esquina, o tímido Beatle mineiro Lô Borges emplacou parcerias com o Skank de Samuel Rosa (“Dois Rios”, 2002). O erudito arquiteto da tropicália Jards Macalé viu seu clássico “Vapor Barato” emplacar um hit na regravação reggae d’O Rappa (1995) e estrelar o Acústico MTV da musa Gal Costa (1997) em dueto com Zeca Baleiro. Por fim, a MTV brasileira estreou em meio à euforia do Acid Jazz britânico – estilo antecipado pela meta-música do bruxo Hermeto Paschoal, que décadas antes tocou com expoentes como Miles Davis.
O fim da MTV se aproxima, nesse mundo globalizado da tecnologia digital. Somos inundados por música 24 horas por dia, 7 dias por semana. O volume de conteúdo à nossa disposição nos separa das gerações passadas. A perda da curadoria da Music Television nos deixou no meio do clássico “Farto do Rock N’Roll” (Ira!, 1988). Numa vertigem de sons, batidas e pulsações, ficamos buscando nos quatro cantos do mundo algo que nos faça enxergar além.
*Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do portal SRzd
Sobre Carlos Frederico Pereira da Silva Gama: Escritor, poeta, cronista, doutor em Relações Internacionais pela PUC-Rio, fundador do BRICS Policy Center, professor da Shiv Nadar University (Índia), cinéfilo e leitor voraz, fã da Fórmula 1 e da cultura pop, líder das bandas independentes Oblique, EXXC e Still That.
Escreveu para a Folha de São Paulo, Jornal do Brasil, Correio Braziliense, O Dia, Brasil Econômico, Portal R7, Observatório da Imprensa e publicações acadêmicas como Global Governance e E-International Relations. É colunista de música e cinema do blog de cultura pop Cultecléticos.
Publicou quatro livros – “Surrealogos” (2012), “Modernity at Risk: Complex Emergencies, Humanitarianism, Sovereignty” (2012), “Após a Guerra, Estabilidade? Mudanças Institucionais nas Operações de Paz da ONU (1992-2000)” (2016) e “Ensaios Globais: da Primavera Árabe ao Brexit (2011-2020)” (2022).
Por Carlos Frederico Pereira da Silva Gama, colaborador do SRzd
44 anos após a primeira transmissão da Music Television – a MTV – o fim da canção se aproxima. O conglomerado controlador da MTV (Paramount) vai desativar em escala global a maioria dos canais musicais criados pela Viacom até 31 de Dezembro de 2025.
Como num documentário da Netflix, a agonia da MTV foi longa. Na virada do novo século, o canal que revolucionou a linguagem musical da década de 1980 havia migrado para os reality shows. A digitalização da música, a popularização dos aplicativos peer-to-peer (P2P) e a viralização do streaming não foram os grandes responsáveis pelo fim da festa. Antes disso, a MTV obrigara a indústria musical a inverter os termos da equação do mercado: o videoclipe passa a vender o artista e, por tabela, a música. A reboque do audiovisual a New Wave se tornou o mais reconhecível artefato pop da “década perdida”.
O Brasil passou batido pela nova onda. Apesar da popularização do BRock ou “Rock Nacional” na década de 1980, o sinal da MTV chegou ao país tropical apenas em 1990, em meio a dois outros divisores de águas. Nas vésperas da queda do Muro de Berlim, a MTV trocou produções multimilionárias pelo formato intimista e minimalista do Acústico (“Unplugged”), mudando uma vez mais a hierarquia musical. Saíram de cena os produtores de cinema e propaganda, a música eletrônica e os efeitos especiais. Voltaram o banquinho, os violões e o despojamento. A virada orgânica da emissora rumo ao Rock coincidiu com a ascensão alternativa através do Atlântico. A neopsicodelia de Manchester, o Grunge de Seattle, o Funk Metal e o Punk-Pop californianos e o Britpop londrino invadiram as ondas da TV, definiram os anos 1990.
No fim do século 20, a MTV se transformou em uma Hollywood alternativa, com artistas underground emplacando apresentações acústicas coroadas de vendagens milionárias. Banda símbolo da década de 1990, o Nirvana lançou o videoclipe mais revolucionário da década (“Smells Like Teen Spirit”, de 1991) e também um dos
mais aclamados acústicos da MTV (“Unplugged in New York”, de 1994). Pela primeira vez na história, um EP acústico (“Jar of Flies”, da banda grunge Alice in Chains) alcançou o número 1 da Billboard 200 no seu lançamento, em 1994. O impacto da MTV na indústria musical era tamanho que outra banda de Seattle, o Pearl Jam, se tornou uma lenda ao recusar gravar videoclipes para seu segundo disco “Vs”, em nome da integridade musical – o disco quebrou recordes de vendas em 1993, superando 1 milhão de copias em sua primeira semana.
Surfando a estabilização econômica do Plano Real, os acústicos da MTV brasileira transformaram grupos esquecidos dos anos 1980 em mega-hitmakers (Capital Inicial) e alavancaram as vendas de grupos alternativos aos patamares de Roberto Carlos (Titãs). O formato acústico seria adotado por outros estilos, como o Pagode, o Sertanejo e o Axé.
O sucesso das inovações trazidas pela MTV a colocaram num beco sem saída. Após reinventar a música para a televisão duas vezes nas décadas de 1980 e 1990, no século 21 a MTV reinventou o próprio formato dos programas televisivos, ao substituir artistas profissionais pelo cotidiano de anônimos ou aspirantes a celebridades. A popularização dos reality shows e a canibalização do cast da MTV brasileira pelas emissoras abertas selou o fim da era de inovação trazida pela Editora Abril muito antes de 2025.
O fim tardio da MTV nos lembra que, ao menos no Brasil, o impacto da televisão no mercado musical foi limitado. A longa tradição do rádio, o uso de músicas em novelas televisivas e a relevância cultural da prática de música acústica tornaram o novo nicho aberto pela MTV facilmente ocupável no século 21 – seja pelas setlists do streaming, pelos DVDs dos campeões de vendas ou pelos cantores anônimos das churrascarias.
Sintomaticamente, grandes nomes da música brasileira homenageados ou falecidos em 2025 construíram suas carreiras mantendo distância da MTV. Homenageado por Nilo Romero no documentário “Cazuza – Boas Novas”, o Exagerado faleceu meses após o lançamento da MTV Brasil (Julho de 1990), já famoso como vocalista do Barão Vermelho encabeçando o festival Rock in Rio (1985) e dono de memorável e curta carreira-solo como poeta do rock brasileiro. Mitologizado pelo Globoplay na serie musical “Eu Sou”, o Rei do Rock brasileiro Raul Seixas nos deixou em 1989, antes das ondas da MTV. O Legião Urbana de Renato Russo – homenageado pelo Globoplay no documentário “Re.Nato” – emplacou um videoclipe sucesso na MTV brasileira (“Perfeição”). O legendário acústico MTV da banda, porém, se tornaria campeão de vendas apenas postumamente, em 2000. Já o mais notável artista multimidia do país – Ney Matogrosso, antologizado no cinema em “Homem com H” – atravessou sólida carreira sem emplacar nenhum hit na MTV.
Se lendas reconhecidas em vida passaram ao largo da Editora Abril em tempos áureos, os artistas cults e “malditos” que o Brasil perdeu em 2025 foram ostracizados, seus traços na televisão musical visíveis apenas via outras vozes. A mais famosa canção da expoente da boemia blues carioca Ângela Ro-Ro fez sucesso na MTV regravada pelo Barão Vermelho (“Amor, Meu Grande Amor”, 1995). Expoente do Clube da Esquina, o tímido Beatle mineiro Lô Borges emplacou parcerias com o Skank de Samuel Rosa (“Dois Rios”, 2002). O erudito arquiteto da tropicália Jards Macalé viu seu clássico “Vapor Barato” emplacar um hit na regravação reggae d’O Rappa (1995) e estrelar o Acústico MTV da musa Gal Costa (1997) em dueto com Zeca Baleiro. Por fim, a MTV brasileira estreou em meio à euforia do Acid Jazz britânico – estilo antecipado pela meta-música do bruxo Hermeto Paschoal, que décadas antes tocou com expoentes como Miles Davis.
O fim da MTV se aproxima, nesse mundo globalizado da tecnologia digital. Somos inundados por música 24 horas por dia, 7 dias por semana. O volume de conteúdo à nossa disposição nos separa das gerações passadas. A perda da curadoria da Music Television nos deixou no meio do clássico “Farto do Rock N’Roll” (Ira!, 1988). Numa vertigem de sons, batidas e pulsações, ficamos buscando nos quatro cantos do mundo algo que nos faça enxergar além.
*Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do portal SRzd
Sobre Carlos Frederico Pereira da Silva Gama: Escritor, poeta, cronista, doutor em Relações Internacionais pela PUC-Rio, fundador do BRICS Policy Center, professor da Shiv Nadar University (Índia), cinéfilo e leitor voraz, fã da Fórmula 1 e da cultura pop, líder das bandas independentes Oblique, EXXC e Still That.
Escreveu para a Folha de São Paulo, Jornal do Brasil, Correio Braziliense, O Dia, Brasil Econômico, Portal R7, Observatório da Imprensa e publicações acadêmicas como Global Governance e E-International Relations. É colunista de música e cinema do blog de cultura pop Cultecléticos.
Publicou quatro livros – “Surrealogos” (2012), “Modernity at Risk: Complex Emergencies, Humanitarianism, Sovereignty” (2012), “Após a Guerra, Estabilidade? Mudanças Institucionais nas Operações de Paz da ONU (1992-2000)” (2016) e “Ensaios Globais: da Primavera Árabe ao Brexit (2011-2020)” (2022).