Após críticas sobre a cor de sua pele, Fabiana Cozza renuncia papel de Ivone Lara
Escolhida para interpretar Ivone Lara — a dama do samba — no teatro, Fabiana Cozza decidiu renunciar o papel no último domingo (03). A desistência foi motivada por críticas sobre a cor de sua pele. Comentários em suas redes sociais condenavam a artista por aceitar interpretar uma mulher negra de pele mais escura que sua. […]
PORRedação SRzd4/6/2018|
5 min de leitura
Fabiana Cozza. Foto: Divulgação
| Siga-nos
Escolhida para interpretar Ivone Lara — a dama do samba — no teatro, Fabiana Cozza decidiu renunciar o papel no último domingo (03). A desistência foi motivada por críticas sobre a cor de sua pele. Comentários em suas redes sociais condenavam a artista por aceitar interpretar uma mulher negra de pele mais escura que sua. Fabiana havia anunciado que interpretaria a dama do samba na última quarta-feira (30).
Em comunicado em sua página no Facebook, Cozza mencionou os diversos motivos que a fizeram desistir do papel. “Renuncio porque vi a ‘guerra’ sendo transferida mais uma vez para dentro do nosso ilê (casa) e senti que a gente poderia ilustrar mais uma vez a página dos jornais quando ‘eles’ transferem a responsabilidade pro lombo dos que tanto chibataram. E seguem o castigo. E racismo vira coisa de nós, pretos. E eles comemoram nossos farrapos na Casa Grande. E bebem, bebem e trepam conosco. As mulatas”, escreveu.
O debate em torno da comparação entre seu tom de pele e o de Dona Ivone também foi destacado. “Renuncio porque a cor da pele de Dona Ivone Lara precisa agora, ainda, ser a de outra artista, mais preta do que eu. Renuncio porque quero um dia dançar ao lado de todo e qualquer irmão, toda e qualquer tom de pele comemorando na praça a nossa liberdade”, afirmou. A artista concluiu com uma citação de Chico Cesar que diz “alma não tem cor”.
A publicação dividiu opiniões de seus seguidores. Alguns comentários reforçavam que Ivone Lara deveria ser representada por alguém com uma cor de pele mais escura. “Fez muito bem em renunciar, pois é fato que Dona Ivone merece ser representada por uma negra retinta, como ela, tão orgulhosa de sua raça. Não vou entrar nos pormenores da sua fala, pois quando se diz que alma não tem cor, traz um reducionismo tão grande ao debate, que não vale a pena”, escreveu uma usuária da rede social.
Entre as pessoas que defendiam a artista, os destaques eram para o talento de Fabiana. “Amada, receba meu abraço e todo meu apoio! Sinto muito… Te amo, admiro demais! Como cantora e pessoa generosa que és!”, comentou outra usuária.
Leia o texto da renuncia na íntegra:
Fabiana Cozza dos Santos, brasileira
Nascimento: 16 de janeiro de 1976
Mãe: Maria Ines Cozza dos Santos, branca
Pai: Oswaldo dos Santos, negro Cor (na certidão de nascimento): parda
Aos irmãos:
O racismo se agiganta quando transferimos a guerra para dentro do nosso terreiro. Renuncio hoje ao papel de Dona Ivone Lara no musical “Dona Ivone Lara – um sorriso negro” após ouvir muitos gritos de alerta – não os ladridos raivosos. Aprendo diariamente no exercício da arte – e mais recentemente no da academia, sempre com os meus mestres – que escuta é lugar de reconhecimento da existência do Outro, é o espelho de nós.
Renuncio porque falar de racismo no Brasil virou papo de gente “politicamente correta”. E eu sou o avesso. Minha humanidade dói fundo porque muitas me atravessam. Muitos são os que gravam o meu corpo. Todas são as minhas memórias.
Renuncio por ter dormido negra numa terça-feira e numa quarta, após o anúncio do meu nome como protagonista do musical, acordar “branca” aos olhos de tantos irmãos. Renuncio ao sentir no corpo e no coração uma dor jamais vivida antes: a de perder a cor e o meu lugar de existência. Ficar oca por dentro. E virar pensamento por horas.
Renuncio porque vi a “guerra” sendo transferida mais uma vez para dentro do nosso ilê (casa) e senti que a gente poderia ilustrar mais uma vez a página dos jornais quando ‘eles’ transferem a responsabilidade pro lombo dos que tanto chibataram. E seguem o castigo. E racismo vira coisa de nós, pretos. E eles comemoram nossos farrapos na Casa Grande. E bebem, bebem e trepam conosco. As mulatas.
Renuncio em memória a todas negras estupradas durante e após a escravidão pelos donos e colonizadores brancos.
Renuncio porque sou negra. Porque tem sopro suficiente dizendo a hora e o lugar de descer para seguir na luta. É minha escuta de lobo, de quilombola. Renuncio pra seguir perseguindo o sol, de cabeça erguida feito o meu pai, minha mãe (branca), meus avós, meus bisavós, tatas…
Ao lado de vocês, irmãos.
Renuncio porque a cor da pele de Dona Ivone Lara precisa agora, ainda, ser a de outra artista, mais preta do que eu. Renuncio porque quero um dia dançar ao lado de todo e qualquer irmão, toda e qualquer tom de pele comemorando na praça a nossa liberdade.
Renuncio porque respeito a família de Dona Ivone Lara: Eliana, André, seu pai e todos os parentes e amigos que cuidaram dela até os 97 anos e tem sido duramente constrangidos por gente que se diz da luta mas ataca os iguais perversamente. Renuncio pelo espírito de Dona Ivone que ainda faz a sua passagem e precisa de paz.
Renuncio porque quero que este episódio sirva para nos unir em torno de uma mesa, cara a cara, para pensarmos juntos espaços de representatividade para todos nós.
Renuncio porque quero que outras mulheres e homens de pele clara, feito eu, também tenham o direito de serem respeitados como negros.
Renuncio porque tenho alma de artista e levo amor pras pessoas. Porque acredito num mundo feito de gente e afeto.
Renuncio porque não tolero a injustiça, o desrespeito ao outro, o linchamento público e gratuito das pessoas, descabido, vil, sem caráter, desumano.
Renuncio em respeito à direção e produção do espetáculo que tanto me abraçou, em respeito ao elenco que agora se forma e que, sensível a tudo, lutou por seu espaço e precisa trabalhar e criar em silêncio.
Renuncio por amor aos meus amigos artistas, familiares, irmãos que a vida me deu que também se entristecem, mas não se acovardam diante dos covardes.
Renuncio porque sou livre feito um Tiê, porque cantarei hoje, aqui, lá e sempre à senhora, Dama Dourada, minha amiga e amada Dona Ivone Lara.
Renuncio porque, como escreveu meu amado amigo Chico Cesar, “alma não tem cor”. E a gente chega lá.
Fabiana Cozza
Escolhida para interpretar Ivone Lara — a dama do samba — no teatro, Fabiana Cozza decidiu renunciar o papel no último domingo (03). A desistência foi motivada por críticas sobre a cor de sua pele. Comentários em suas redes sociais condenavam a artista por aceitar interpretar uma mulher negra de pele mais escura que sua. Fabiana havia anunciado que interpretaria a dama do samba na última quarta-feira (30).
Em comunicado em sua página no Facebook, Cozza mencionou os diversos motivos que a fizeram desistir do papel. “Renuncio porque vi a ‘guerra’ sendo transferida mais uma vez para dentro do nosso ilê (casa) e senti que a gente poderia ilustrar mais uma vez a página dos jornais quando ‘eles’ transferem a responsabilidade pro lombo dos que tanto chibataram. E seguem o castigo. E racismo vira coisa de nós, pretos. E eles comemoram nossos farrapos na Casa Grande. E bebem, bebem e trepam conosco. As mulatas”, escreveu.
O debate em torno da comparação entre seu tom de pele e o de Dona Ivone também foi destacado. “Renuncio porque a cor da pele de Dona Ivone Lara precisa agora, ainda, ser a de outra artista, mais preta do que eu. Renuncio porque quero um dia dançar ao lado de todo e qualquer irmão, toda e qualquer tom de pele comemorando na praça a nossa liberdade”, afirmou. A artista concluiu com uma citação de Chico Cesar que diz “alma não tem cor”.
A publicação dividiu opiniões de seus seguidores. Alguns comentários reforçavam que Ivone Lara deveria ser representada por alguém com uma cor de pele mais escura. “Fez muito bem em renunciar, pois é fato que Dona Ivone merece ser representada por uma negra retinta, como ela, tão orgulhosa de sua raça. Não vou entrar nos pormenores da sua fala, pois quando se diz que alma não tem cor, traz um reducionismo tão grande ao debate, que não vale a pena”, escreveu uma usuária da rede social.
Entre as pessoas que defendiam a artista, os destaques eram para o talento de Fabiana. “Amada, receba meu abraço e todo meu apoio! Sinto muito… Te amo, admiro demais! Como cantora e pessoa generosa que és!”, comentou outra usuária.
Leia o texto da renuncia na íntegra:
Fabiana Cozza dos Santos, brasileira
Nascimento: 16 de janeiro de 1976
Mãe: Maria Ines Cozza dos Santos, branca
Pai: Oswaldo dos Santos, negro Cor (na certidão de nascimento): parda
Aos irmãos:
O racismo se agiganta quando transferimos a guerra para dentro do nosso terreiro. Renuncio hoje ao papel de Dona Ivone Lara no musical “Dona Ivone Lara – um sorriso negro” após ouvir muitos gritos de alerta – não os ladridos raivosos. Aprendo diariamente no exercício da arte – e mais recentemente no da academia, sempre com os meus mestres – que escuta é lugar de reconhecimento da existência do Outro, é o espelho de nós.
Renuncio porque falar de racismo no Brasil virou papo de gente “politicamente correta”. E eu sou o avesso. Minha humanidade dói fundo porque muitas me atravessam. Muitos são os que gravam o meu corpo. Todas são as minhas memórias.
Renuncio por ter dormido negra numa terça-feira e numa quarta, após o anúncio do meu nome como protagonista do musical, acordar “branca” aos olhos de tantos irmãos. Renuncio ao sentir no corpo e no coração uma dor jamais vivida antes: a de perder a cor e o meu lugar de existência. Ficar oca por dentro. E virar pensamento por horas.
Renuncio porque vi a “guerra” sendo transferida mais uma vez para dentro do nosso ilê (casa) e senti que a gente poderia ilustrar mais uma vez a página dos jornais quando ‘eles’ transferem a responsabilidade pro lombo dos que tanto chibataram. E seguem o castigo. E racismo vira coisa de nós, pretos. E eles comemoram nossos farrapos na Casa Grande. E bebem, bebem e trepam conosco. As mulatas.
Renuncio em memória a todas negras estupradas durante e após a escravidão pelos donos e colonizadores brancos.
Renuncio porque sou negra. Porque tem sopro suficiente dizendo a hora e o lugar de descer para seguir na luta. É minha escuta de lobo, de quilombola. Renuncio pra seguir perseguindo o sol, de cabeça erguida feito o meu pai, minha mãe (branca), meus avós, meus bisavós, tatas…
Ao lado de vocês, irmãos.
Renuncio porque a cor da pele de Dona Ivone Lara precisa agora, ainda, ser a de outra artista, mais preta do que eu. Renuncio porque quero um dia dançar ao lado de todo e qualquer irmão, toda e qualquer tom de pele comemorando na praça a nossa liberdade.
Renuncio porque respeito a família de Dona Ivone Lara: Eliana, André, seu pai e todos os parentes e amigos que cuidaram dela até os 97 anos e tem sido duramente constrangidos por gente que se diz da luta mas ataca os iguais perversamente. Renuncio pelo espírito de Dona Ivone que ainda faz a sua passagem e precisa de paz.
Renuncio porque quero que este episódio sirva para nos unir em torno de uma mesa, cara a cara, para pensarmos juntos espaços de representatividade para todos nós.
Renuncio porque quero que outras mulheres e homens de pele clara, feito eu, também tenham o direito de serem respeitados como negros.
Renuncio porque tenho alma de artista e levo amor pras pessoas. Porque acredito num mundo feito de gente e afeto.
Renuncio porque não tolero a injustiça, o desrespeito ao outro, o linchamento público e gratuito das pessoas, descabido, vil, sem caráter, desumano.
Renuncio em respeito à direção e produção do espetáculo que tanto me abraçou, em respeito ao elenco que agora se forma e que, sensível a tudo, lutou por seu espaço e precisa trabalhar e criar em silêncio.
Renuncio por amor aos meus amigos artistas, familiares, irmãos que a vida me deu que também se entristecem, mas não se acovardam diante dos covardes.
Renuncio porque sou livre feito um Tiê, porque cantarei hoje, aqui, lá e sempre à senhora, Dama Dourada, minha amiga e amada Dona Ivone Lara.
Renuncio porque, como escreveu meu amado amigo Chico Cesar, “alma não tem cor”. E a gente chega lá.