ARTIGO: A epidemia da hora

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A internet aproximou as pessoas - por e-mail, ICQ, Yahoogroups, MSN e Orkut, ninguém mais tem direito ao isolamento.

POR Redação SRzd 19/6/2006| 7 min de leitura

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A internet aproximou as pessoas - por e-mail, ICQ, Yahoogroups, MSN e Orkut, ninguém mais tem direito ao isolamento.

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A internet aproximou as pessoas. É incrível, mas é verdade. Primeiro foi o e-mail, depois veio o ICQ, o Yahoogroups, o MSN e o Orkut. Pronto, encontramos todo mundo, sabemos a data de aniversário de todos os amigos, velhos colegas de escola e até de amigos de amigos. Ninguém mais tem o direito ao isolamento. Ninguém mais pode repetir Greta Garbo.

A conseqüência disto é uma agenda social subitamente repleta de eventos, dos mais diferentes portes, em que os grupos se encontram. Nestes encontros, reprisa-se uma encenação, que envolve cumprimentos, queixas de ligações não retornadas, lembranças de situações compartilhadas no passado e promessas de encontros futuros. No desenrolar dos eventos, formam-se grupos que se distinguem por temas de interesse.

Tradicional e inexplicavelmente, homens se separam de mulheres. Estas, dotadas de sentido mais prático, discutem coisas relevantes, como liquidações e as dicas sobre esquiar na neve fofa em Valle Nevado. Os homens, mais sisudos (sim, os homens sempre precisam passar seriedade), se envolvem em acaloradas trocas de idéias e opiniões sobre assuntos menos importantes, tais como futebol, automóveis, as pernas da nova estagiária, crise política e, cada vez mais, a questão cambial. Todos têm opinião formada sobre política cambial, todos têm conselhos de inestimável valor a dar ao Ministro Guido Mantegna e ao presidente do Banco Central, Henrique Meirelles.

Liga-se televisão, e lá está um representante da FIESP deitando falação sobre a defasagem cambial, dizendo que a indústria está perdendo clientes. No outro canal, quem fala é o representante da Confederação Nacional da Agricultura, prevenindo-nos sobre o colapso da lavoura, caso não se promova a correção do câmbio. O que é isso, afinal? Uma epidemia comportamental? Será que, por demais atentas à gripe aviária, as autoridades sanitárias se esqueceram de ações preventivas contra um mal tão contagioso? Chego a ter a impressão que se vivo fosse o filósofo Diógenes, ele sairia de seu tonel por aí, lanterna em punho, a procurar a verdadeira cotação para o dólar americano.

Há um sentimento coletivo de que a taxa de câmbio, nos níveis atuais, está longe de um valor que possa ser considerado justo. Não faltam gráficos e exercícios para provar tal tese. Sinto-me intelectualmente diminuído, pois não tenho meu próprio preço justo para o dólar que eu possa exibir por aí. Não por preguiça mental, afinal tenho me esforçado para tentar ampliar meu entendimento do problema. Deixo aqui, como modesta contribuição para os debates, o pouco que consegui entender sobre a questão.

Para início de questão, deve-se fixar um objetivo quanto às contas externas de um país. Ou bem um país em desenvolvimento (caso brasileiro) carece de capitais externos para financiar seus investimentos e, por conta disto, necessita gerar déficits em transações correntes para atrair poupança externa, ou este país pôs em risco sua capacidade de servir o endividamento externo e precisa gerar superávits em conta corrente, de modo a reduzir sua vulnerabilidade cambial. Isto posto, o conjunto de políticas econômicas deve produzir uma ambiente macro-econômico favorável à estabilização da taxa de câmbio em nível que propicie o resultado almejado. Neste quesito, já se forma divergências em meio aos estudiosos.

Quando se fala em um preço justo ou preço de equilíbrio de longo prazo para a taxa de câmbio e trata-se uma série histórica para concluir sobre desvios atuais, deve-se tomar um certo preço em uma certa data como ponto de partida. Aí começam as dificuldades. Qual o preço passado justo?

Uma primeira tentação é debruçar sobre os resultados do comércio exterior do país. Olhando os últimos 30 anos de balança comercial brasileira, vê-se um período de déficits crônicos que se segue ao primeiro choque do petróleo (setembro de 1973) e se estende até 1981, quando tem início um ciclo de superávits que se prolonga até o lançamento do Plano Real (segundo semestre de 1994). Novo ciclo de saldos negativos se abre até sua reversão no início de 2001. A partir daí, os saldos são positivos e continuadamente crescentes.

Antes que alguém possa tirar qualquer conclusão apressada, deve-se proceder uma análise das práticas cambiais. Ao longo deste período, pusemos em prática diferentes regimes cambiais: administrado indexado aos preços domésticos (crawling peg), administrado com variação pré-fixada, congelado, livre, uma banda diagonal endógena, e tivemos duas maxi-desvalorizações administradas (1979 e 1983), uma midi-desvalorização administrada (1991), e duas maxidesvalorizações não administradas (1999 e 2002).

Mas isto não diz tudo. É preciso, ainda, considerar as mudanças na política industrial e nos regimes fiscais alfandegários. Subsídios sobre exportações, taxações sobre importações, limitações não-tarifárias, instituição de regras para drawback e criação de Zonas de Processamento de Exportações produzem alterações na dinâmica do comércio exterior que podem tornar o problema do preço da moeda menos importante para a pretendida geração de saldos comerciais.

Outro aspecto crítico reside na evolução dos diferenciais de produtividade do país com relação a seus parceiros ou competidores comerciais. Se o Brasil, no nosso caso, incorpora mais ganhos de produtividade que os países de referência, a taxa de câmbio pode apreciar sem produzir reflexo negativo imediato sobre a balança. Sobre o diferencial de produtividade, deve-se, ainda, levara em conta as mudanças ocorridas no mix de parceiros comerciais ao longo do tempo, bem como no mix de produtos comercializados. De nada valeria comparar evolução de produtividade em produtos que perderam relevância na pauta de comércio exterior ou contra países com os quais as relações comerciais perderam representatividade.

Um fator que, também, pode alterar o ponto de equilíbrio da taxa de câmbio é a mudança de preços internacionais dos produtos que compõem a pauta de comércio exterior. Nos anos recentes, a China produziu considerável apreciação das commodities no mercado internacional. Em tal situação, se um país é liquidamente exportador de commodities, a taxa de câmbio pode apreciar sem que a renda do produtor se reduza, mantendo-se, assim, sua competitividade internacional.

Bem, poderíamos gastar aqui muito mais tempo e espaço tratando da questão do câmbio, mas, muito provavelmente, não se chegaria a uma conclusão sobre a taxa de câmbio justa. São tantos os filtros, tantas as ressalvas que as discussões não levariam a um consenso sobre um nível justo e adequado de taxa de câmbio e sobre a necessidade de uma política cambial intervencionista por parte do Banco Central.

Na verdade, há uma limitação econômica para tais intervenções que é o fato de o Tesouro Nacional não ser gerador de superávit operacional que pudesse ser consumido pelo BC na aquisição de divisas. Assim sendo, a compra de dólares representa injeção de moeda na economia e, de forma que não se prejudique a política monetária em curso, o Tesouro deveria emitir títulos de dívida para que o BC pudesse reabsorver a moeda excedente. Transferiria-se, assim, o problema de ordem cambial para a área fiscal. Não me parece uma solução das mais brilhantes.

O ponto final, que pretendo deixar para reflexão, é o fato de que, a despeito de qualquer conclusão econométrica a que se chegue e de todas as queixas, os volumes exportados bem como superávits gerados seguem batendo recordes históricos. Este, a meu ver, é o fator determinante para o comportamento da taxa de câmbio, mas isto é apenas minha opinião e, por conta disto, ainda não sofri o contágio da epidemia da questão cambial. Estou mesmo preocupado é com a gripe aviária e procurando encontrar outros assuntos para conversar no 46º aniversário de minha formatura do jardim de infância.

A internet aproximou as pessoas. É incrível, mas é verdade. Primeiro foi o e-mail, depois veio o ICQ, o Yahoogroups, o MSN e o Orkut. Pronto, encontramos todo mundo, sabemos a data de aniversário de todos os amigos, velhos colegas de escola e até de amigos de amigos. Ninguém mais tem o direito ao isolamento. Ninguém mais pode repetir Greta Garbo.

A conseqüência disto é uma agenda social subitamente repleta de eventos, dos mais diferentes portes, em que os grupos se encontram. Nestes encontros, reprisa-se uma encenação, que envolve cumprimentos, queixas de ligações não retornadas, lembranças de situações compartilhadas no passado e promessas de encontros futuros. No desenrolar dos eventos, formam-se grupos que se distinguem por temas de interesse.

Tradicional e inexplicavelmente, homens se separam de mulheres. Estas, dotadas de sentido mais prático, discutem coisas relevantes, como liquidações e as dicas sobre esquiar na neve fofa em Valle Nevado. Os homens, mais sisudos (sim, os homens sempre precisam passar seriedade), se envolvem em acaloradas trocas de idéias e opiniões sobre assuntos menos importantes, tais como futebol, automóveis, as pernas da nova estagiária, crise política e, cada vez mais, a questão cambial. Todos têm opinião formada sobre política cambial, todos têm conselhos de inestimável valor a dar ao Ministro Guido Mantegna e ao presidente do Banco Central, Henrique Meirelles.

Liga-se televisão, e lá está um representante da FIESP deitando falação sobre a defasagem cambial, dizendo que a indústria está perdendo clientes. No outro canal, quem fala é o representante da Confederação Nacional da Agricultura, prevenindo-nos sobre o colapso da lavoura, caso não se promova a correção do câmbio. O que é isso, afinal? Uma epidemia comportamental? Será que, por demais atentas à gripe aviária, as autoridades sanitárias se esqueceram de ações preventivas contra um mal tão contagioso? Chego a ter a impressão que se vivo fosse o filósofo Diógenes, ele sairia de seu tonel por aí, lanterna em punho, a procurar a verdadeira cotação para o dólar americano.

Há um sentimento coletivo de que a taxa de câmbio, nos níveis atuais, está longe de um valor que possa ser considerado justo. Não faltam gráficos e exercícios para provar tal tese. Sinto-me intelectualmente diminuído, pois não tenho meu próprio preço justo para o dólar que eu possa exibir por aí. Não por preguiça mental, afinal tenho me esforçado para tentar ampliar meu entendimento do problema. Deixo aqui, como modesta contribuição para os debates, o pouco que consegui entender sobre a questão.

Para início de questão, deve-se fixar um objetivo quanto às contas externas de um país. Ou bem um país em desenvolvimento (caso brasileiro) carece de capitais externos para financiar seus investimentos e, por conta disto, necessita gerar déficits em transações correntes para atrair poupança externa, ou este país pôs em risco sua capacidade de servir o endividamento externo e precisa gerar superávits em conta corrente, de modo a reduzir sua vulnerabilidade cambial. Isto posto, o conjunto de políticas econômicas deve produzir uma ambiente macro-econômico favorável à estabilização da taxa de câmbio em nível que propicie o resultado almejado. Neste quesito, já se forma divergências em meio aos estudiosos.

Quando se fala em um preço justo ou preço de equilíbrio de longo prazo para a taxa de câmbio e trata-se uma série histórica para concluir sobre desvios atuais, deve-se tomar um certo preço em uma certa data como ponto de partida. Aí começam as dificuldades. Qual o preço passado justo?

Uma primeira tentação é debruçar sobre os resultados do comércio exterior do país. Olhando os últimos 30 anos de balança comercial brasileira, vê-se um período de déficits crônicos que se segue ao primeiro choque do petróleo (setembro de 1973) e se estende até 1981, quando tem início um ciclo de superávits que se prolonga até o lançamento do Plano Real (segundo semestre de 1994). Novo ciclo de saldos negativos se abre até sua reversão no início de 2001. A partir daí, os saldos são positivos e continuadamente crescentes.

Antes que alguém possa tirar qualquer conclusão apressada, deve-se proceder uma análise das práticas cambiais. Ao longo deste período, pusemos em prática diferentes regimes cambiais: administrado indexado aos preços domésticos (crawling peg), administrado com variação pré-fixada, congelado, livre, uma banda diagonal endógena, e tivemos duas maxi-desvalorizações administradas (1979 e 1983), uma midi-desvalorização administrada (1991), e duas maxidesvalorizações não administradas (1999 e 2002).

Mas isto não diz tudo. É preciso, ainda, considerar as mudanças na política industrial e nos regimes fiscais alfandegários. Subsídios sobre exportações, taxações sobre importações, limitações não-tarifárias, instituição de regras para drawback e criação de Zonas de Processamento de Exportações produzem alterações na dinâmica do comércio exterior que podem tornar o problema do preço da moeda menos importante para a pretendida geração de saldos comerciais.

Outro aspecto crítico reside na evolução dos diferenciais de produtividade do país com relação a seus parceiros ou competidores comerciais. Se o Brasil, no nosso caso, incorpora mais ganhos de produtividade que os países de referência, a taxa de câmbio pode apreciar sem produzir reflexo negativo imediato sobre a balança. Sobre o diferencial de produtividade, deve-se, ainda, levara em conta as mudanças ocorridas no mix de parceiros comerciais ao longo do tempo, bem como no mix de produtos comercializados. De nada valeria comparar evolução de produtividade em produtos que perderam relevância na pauta de comércio exterior ou contra países com os quais as relações comerciais perderam representatividade.

Um fator que, também, pode alterar o ponto de equilíbrio da taxa de câmbio é a mudança de preços internacionais dos produtos que compõem a pauta de comércio exterior. Nos anos recentes, a China produziu considerável apreciação das commodities no mercado internacional. Em tal situação, se um país é liquidamente exportador de commodities, a taxa de câmbio pode apreciar sem que a renda do produtor se reduza, mantendo-se, assim, sua competitividade internacional.

Bem, poderíamos gastar aqui muito mais tempo e espaço tratando da questão do câmbio, mas, muito provavelmente, não se chegaria a uma conclusão sobre a taxa de câmbio justa. São tantos os filtros, tantas as ressalvas que as discussões não levariam a um consenso sobre um nível justo e adequado de taxa de câmbio e sobre a necessidade de uma política cambial intervencionista por parte do Banco Central.

Na verdade, há uma limitação econômica para tais intervenções que é o fato de o Tesouro Nacional não ser gerador de superávit operacional que pudesse ser consumido pelo BC na aquisição de divisas. Assim sendo, a compra de dólares representa injeção de moeda na economia e, de forma que não se prejudique a política monetária em curso, o Tesouro deveria emitir títulos de dívida para que o BC pudesse reabsorver a moeda excedente. Transferiria-se, assim, o problema de ordem cambial para a área fiscal. Não me parece uma solução das mais brilhantes.

O ponto final, que pretendo deixar para reflexão, é o fato de que, a despeito de qualquer conclusão econométrica a que se chegue e de todas as queixas, os volumes exportados bem como superávits gerados seguem batendo recordes históricos. Este, a meu ver, é o fator determinante para o comportamento da taxa de câmbio, mas isto é apenas minha opinião e, por conta disto, ainda não sofri o contágio da epidemia da questão cambial. Estou mesmo preocupado é com a gripe aviária e procurando encontrar outros assuntos para conversar no 46º aniversário de minha formatura do jardim de infância.

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