COPA 2006: Chegou a hora!

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Veja aqui a opinião dos colaboradores do SRZD.

POR Redação SRzd13/06/2006|7 min de leitura

COPA 2006: Chegou a hora!
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A grana que rola
MARINA W.

Escrever sobre a Copa? Para se ter uma idéia: hoje eu estava no Aeroporto de Congonhas, em São Paulo, e dezenas de homens faziam um círculo em frente a TV. Dei uma olhada, vi a camisa amarela, e me aproximei de um rapaz que estava feliz porque rolou um gol. “É jogo do Brasil?”, perguntei. Dãn. “Austrália”, ele respondeu. Por aí se nota meu extremo interesse. Exatamente porque tem o genial Ronaldinho Gaúcho que não me interesso. Porque sei que o talento dele não importa tanto. E me disseram que a França ganhou por causa da Adidas. Negociações. Então eu me pergunto: “Vou torcer para a Nike ou para Adidas?” Mais ou menos assim que eu vejo a Copa. As cartas marcadas, a convulsão do Ronaldo, a grana alta. O motorista do táxi me disse: “Vai dar Alemanha, porque está jogando em casa”. Isto me desanima. Futebol é o mais bonito de todos os esportes, porque é arte brasileira das mais requintadas. E é tão masculino. Me encanta um cara que poderia ser entregador de supermercado ‘ como o Romário era, aliás – se tornar uma estrela mundial. O país está verde e amarelo. Nós temos ginga, time, e a maior torcida do mundo. Isto que me desanima. Eu sou romântica, eu sou América Futebol Clube.

Marina W. é jornalista

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Não há quem possa
EUCLYDES P.

Questão bola, tenho uma convicção inquebrantável, como diziam os antigos: se o Brasil tivesse um mínimo de vergonha na cara, o futebol brasileiro estaria para o do resto do mundo como o basquete norte-americano está para os encestadores mortais: alguns níveis acima. Com a diferença de que futebol não é basquete, sendo portanto mais freqüentes os tropeços dos inqüestionáveis com a bola no pé do que com a dita na mão. Mas por lógica e justiça, estaríamos tranqüilamente alguns patamares mais alto.

E olha que futebol não é lógica, muito menos justiça, daí a maravilha do jogo jogado, dessa tão falada surprise box ( como se diz em português de início de milênio). Além do que, vergonha na cara não é exatamente um artigo fácil de encontrar no nosso Gigante adormecido. Ter tem, mas tem que catar. No caso ludopédico, por trás das maquinações ricardoteixeirianas da vida, para além das placas de merchandising, logo ali atrás de mais uma campanha publicitária, dessas que pegam carona na credibilidade construída a dribles e gols.

É hora de lembrar que foi aqui mesmo, nesse nosso pré-capitalismo escravocrata e não num país onde pelos menos as necessidades mínimas já foram atendidas, que surgiram figuras como Afonsinho e o finado e saudoso João Saldanha. O primeiro, campeão na luta pelos direitos dos donos do espetáculo ‘ os jogadores, claro. O segundo, mestre da tática ofensiva, arquiteto do antológico escrete de 70 e incansável batalhador na briga sem fim para andar de cabeça erguida. Cada um a seu jeito, ajudaram a engrandecer o futebol e a história deste (que ainda há de ser) país. Junto com Saldanha e Afonsinho, Zizinho, Nílton Santos, Tostão, Telê, Reinaldo, Sócrates e outros muitos, provaram que a mistura de raças, credos, estilos, classses sociais e tudo o mais é capaz de gerar o que de mais belo o gênio humano pode produzir: a arte que vem da superação.

Bola pra frente.

Euclydes P. é jornalista

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Onde você estará hoje às 16h?
PATRÍCIA MAURÍCIO

A aluna veio pedir para gravar uma entrevista comigo para saber o que eu achava de a universidade fechar nas tardes dos jogos do Brasil na Copa. Fiquei olhando para ela sem entender ‘ tem que achar alguma coisa? E ela, vendo minha cara de idiota, continuou: ‘O que você acha das empresas, escolas, fecharem?â?. Ah, sim, claro que tem que fechar. Ela ficou decepcionada, porque as entrevistas eram para descobrir o que pensavam as pessoas contrárias a tudo parar para ver o jogo.

Ela saiu decepcionada para um lado, eu intrigada para o outro: será que eu tenho cara de quem não está se coçando pelo menos um mês antes para saber onde ver o jogo da estréia? E será que ela vai conseguir achar alguém para essa entrevista? Que essas pessoas existem, existem, mas daí a achar uma… Acho que é igual a pesquisa de audiência de TV do Ibope; tem gente que participa, mas você conhece algum deles?

Não deu dois dias, fiquei sabendo por fonte fidedigna que na Argentina as escolas e empresas não fecham na hora do jogo. Como? Em outros países que até gostam muito de futebol ainda dá para acreditar que aconteça uma esquisitice dessas, mas na Argentina? Esse mundo está perdido. Vou apurar direitinho se isso é verdade, mas enquanto a resposta não chega no meu próximo artigo lanço uma perguntinha só para atiçar as boas lembranças: onde você estava quando o Baggio chutou para fora?

Patrícia Maurício é jornalista

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A hora é essa, e viva o Brasil !
SAMANTHA NOGUEIRA

Depois de um hiato de quatro anos, o país entra em campo, unido, pela conquista de mais uma Copa do Mundo! Esta será a terceira Copa que assistirei longe do Brasil. Testemunhei, em solo distante, cercada de americanos, mexicanos, canadenses, brasileiros, irlandeses e até mesmo ao lado de um finlandês a conquista de dois de nossos títulos (1994, 2002).

A maneira com que nossos jogadores se comportam em campo, a ginga, a habilidade, o orgulho, e acima de tudo a interação entre jogadores e torcedores, se traduzem em grande respeito e admiração de outros países. Quando a bola rola, não há rivalidade entre flamenguistas e vascaínos ou corintianos e são-paulinos. E mesmo que o nosso endereço não seja no Brasil, estamos torcendo juntos, com suor e com afeto, por um mesmo ideal.

Nunca, nos quase dez anos em que vivi nos Estados Unidos, presenciei algo que se aproxime deste fator unificador que é o nosso futebol. Durante a Copa do Mundo, nos damos ao luxo de esquecer nossos problemas, que são tantos. E de olho na bola, nada mais importa senão sermos brasileiros e (sem falsa modéstia) somos sim os melhores! A hora é essa, e viva o Brasil!

Samantha Nogueira é jornalista e professora da Universidade Estadual de São Francisco. Mora nos Estados Unidos desde 2001.

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Pausa
EDUARDO BASZCZYN

O beijo interrompido. A frase incompleta. A música desligada, antes do refrão. O livro fechado. O almoço largado. O filme abandonado antes dos créditos. Máquinas paradas. Canetas deitadas. O telefone que toca pra ninguém. Tudo deixado como está. Não se pode perder tempo. Pressa no acelerador. Atraso que atravessa o sinal vermelho. Degraus subidos de dois em dois. Suor no canto da testa. Não se pode perder nem o Hino. A música que sai pelas janelas. Que se espalha pela cidade quase vazia. Pela São Paulo sempre cinza, hoje colorida. Bandeira no carro. Na loja. Nas janelas. Bandeira na mão, apertada como terço em oração. Olhos que não piscam. Não se pode perder nada.

Nenhum gesto. Drible. Nenhuma expressão. Os caminhos da bola que não vai. E vem. Que volta. Que custa a entrar onde deveria. Arte sobre um palco todo verde. Dança. Noventa minutos de vida parada para acompanhar cada movimento. Não se pode perder nada. Nem que para isso o mundo fique parado. Em pausa. É espera de um apito final que coloque tudo no play.

Eduardo Baszczyn é jornalista

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