ESPORTE: Nem tudo são flores na ginástica brasileira

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A presidente da Federação de Ginástica do Rio de Janeiro, Andrea João, alerta para a necessidade de se democratizar o esporte.

POR Redação SRzd24/06/2006|7 min de leitura

ESPORTE: Nem tudo são flores na ginástica brasileira
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A ginástica brasileira vive o seu melhor momento com os resultados internacionais obtidos por Daiane dos Santos e Diego Hypólito. Isso não significa que ajustes não precisem ser feitos. A presidente da Federação de Ginástica do Rio de Janeiro, Andrea João, é uma das que alertam para a necessidade de se democratizar o esporte, para que ele não fique restrito a um grupo reduzido.

A Federação do Rio de Janeiro, por exemplo, está atravessando uma fase difícil. A maior entidade administrativa da ginástica do Rio está prestes a fechar as portas por falta de verba para sua manutenção. Para sensibilizar autoridades, atletas e dirigentes estão dispostos a participar de um abaixo-assinado e distribuir um manifesto em frente à Assembléia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro (Alerj).

Para complicar, Andrea João lembra que “as pessoas que trabalham para desenvolver a ginástica no Rio de Janeiro ainda não foram envolvidas com os Jogos Panamericanos em nenhum aspecto. Tenho esperanças de que técnicos, atletas, árbitros e diretoria tenham alguma participação mais efetiva nesse evento e que não se limitem apenas a ir comprar seus ingressos para assistir a três dias de competição”.

Leia a entrevista completa:

SRZD – Qual é a situação real da ginástica brasileira hoje?

Em termos de resultados internacionais podemos dizer que atravessamos o melhor período da história da ginástica. O Brasil conseguiu dois títulos de campeão mundial de solo com Daiane dos Santos e Diego Hipólyto; levou uma equipe completa e teve duas finalistas nos Jogos Olímpicos, além de muitas medalhas em copas do mundo. Acredito que a ginástica de alto rendimento vai muito bem – tem a verba de suporte da Lei Agnelo Piva. Com isso, os atletas têm ginásio com aparelhagem completa, estadia, alimentação, viagens pagas para competições, uniformes, atendimento médico, um técnico estrangeiro e salário. No entanto, essa estrutura atende a um número muito pequeno de ginastas e somente a um estado brasileiro. Acredito que estes resultados estejam mais relacionados ao talento individual dos ginastas somados a uma boa estrutura. Mas a renovação me preocupa muito, pois os atletas só alcançam essa oportunidade depois de conseguirem resultados, ou seja, os atletas que têm potencial mas não tem estrutura podem se perder.

SRZD – O trabalho de base necessário para transformar o Brasil numa potência na ginástica está sendo feito de verdade?

É muito fraco. Não podemos afirmar que o Brasil é uma potência na ginástica só por termos dois campeões mundiais e uma elite sendo preparada em somente um local. O Brasil é muito grande e necessita de outros espaços que possam também preparar ginastas. Além de discentralizar o trabalho de preparação das seleções, criando novos centros de treinamento, o investimento na capacitação de treinadores brasileiros também deveria ser incrementado. Existem muitos treinadores no Brasil com potencial para acompanhar atletas da seleção. Por exemplo, quando um atleta recebe um patrocínio, o técnico não ganha nada e isso o desmotiva, fazendo com que não queira mas se dedicar à árdua tarefa de preparar ginastas. Outro aspecto dessa falta de motivação é que depois que o técnico prepara o atleta (estamos falando de pelo menos quatro anos de trabalho) o atleta ascende mas o treinador não tem nenhum reconhecimento por isso. Por ser o técnico um “fabricante dos atletas”, ele precisa ser motivado e ter seu trabalho reconhecido.

SRZD – É caro iniciar uma criança na ginástica?

O mito de que os equipamentos de ginástica são caros precisa ser derrubado. Os equipamentos necessários para aulas de iniciação são muito baratos e podem ser artesanais. O espaço para as aulas também pode ser reduzido. Pela falta de informação, muitos pólos de iniciação deixam de existir por conta desses mitos. Outro exemplo importante é de que a ginástica vai deixar a criança baixinha. Só profissionais com total desconhecimento dos fatores que interferem no crescimento dos jovens é que podem afirmar isso. Estudos cientificamente comprovados afirmam que a estatura está relacionada aos fatores genéticos e que a atividade física pouco contribui para a estatura final. Dessa forma, brincamos de dizer que quem fizer basquete vai ficar um gigante. Os atletas de ginástica são selecionados justamente por já possuir baixa estatura, já que favorece as rotações e o equilíbrio.

SRZD – Como está indo o desenvolvimento da ginástica no Rio de Janeiro?

Quando assumi a Federação em 1999 estava um caos. O ex-presidente contraiu uma série de dívidas, deixou a entidade sem credibilidade e com sua imagem denegrida. Praticamente acabou com 50 anos de tradição das modalidades de ginástica do Rio no país e no exterior. Recuperamos a máquina administrativa, trouxemos técnicos, atletas, árbitros e entidades de novo para a Federação, pois cada um estava desenvolvendo seus trabalhos isoladamente. A partir daí, crescemos muito, pagamos todas as dívidas (exceto uma, com o Estado) e estamos com todas as certidões limpas. Recuperamos os filiados e cumprimos os calendários de eventos.

SRZD – Essa recuperação angariou apoio para o esporte?

Apesar desse crescimento, não conseguimos quase nenhum apoio dos órgão públicos, apesar de muitas promessas. Sem verba suficiente para se manter, a principal entidade administrativa da ginástica no Rio de Janeiro fechou as portas em abril. Atletas do Rio estão saindo para competir por outros estados que dão mais apoio. Realizamos uma assembléia extraordinária em caráter de urgência para decidirmos o futuro da Federação e decidimos fazer um abaixo-assinado e uma manifestação com apresentação dos atletas em frente à Alerj para tentar sensibilizar os governos do nosso potencial e do nosso abandono, e reivindicarmos algum apoio e reconhecimento.

SRZD –Mas o trabalho continua?

Fica muito difícil desenvolver a ginástica sem que a Federação tenha um espaço de treinamento e competições. O famoso centro de treinamento ainda não saiu do papel e temos equipamentos importados guardados a dois anos sem uso. Mesmo assim, é de surpreender que ainda tenhamos um grande número de atletas nas seleções brasileiras e um grande número de jovens e adolescentes praticando a ginástica.

SRZD – Por que os patrocinadores brasileiros não investem no esporte como fazem com outras modalidades?

Parece-me que o futebol, por estar mais inserido na nossa cultura, é o esporte que mais tem apoio. Talvez por falta de conhecimento das empresas, pois sabemos que patrocinadores como Correios, Banco do Brasil e Caixa estão bastante satisfeitos com o retorno do investimento feito nos esportes. Penso também que a lei de incentivo fiscal, caso seja aprovada este ano, venha impulsionar o interesse desses patrocinadores, assim como acontece com a Lei Rouanet da cultura.

SRZD – Os Jogos Panamericanos do ano que vem podem trazer que tipo de resultado para o esporte brasileiro?

Um evento desse porte deve ter como principais objetivos melhorar as condições de vida na cidade, gerar empregos, e elevar a auto-estima das pessoas. No caso específico da ginástica, até agora estamos totalmente fora do processo. As pessoas que trabalham para desenvolver esse esporte ainda não foram envolvidas com o evento em nenhum aspecto. Tenho esperanças de que técnicos, atletas, árbitros e diretoria tenham alguma participação mais efetiva nesse evento e que não se limitem apenas a ir comprar seus ingressos para assistir a três dias de competição. Participar do processo de preparação das competições e vivenciar de perto essa estrutura pode trazer muita experiência, conhecimento e motivação à comunidade da ginástica.

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